O uso do condicionamento animal como auxílio ao manejo veterinário de macaco rhesus gestantes
Palavras-chave:
Ausculta fetal, Bem-estar, Manejo reprodutivo, Palpação, Pré-natalResumo
Resumo
Os primatas são cruciais para o avanço do conhecimento biomédico, possibilitando descobertas significativas de diversas patologias. O uso do condicionamento animal é eficaz para reduzir o estresse em procedimentos e, em fêmeas gestantes, contribui para minimizar os efeitos adversos que o anestésico pode acarretar à saúde e desenvolvimento do feto. O objetivo deste trabalho foi utilizar técnicas de condicionamento em fêmeas de Macaca mulatta, para realização de exames clínicos pré-natais. A técnica se mostrou eficaz para o acompanhamento durante o período pré-natal, não sendo necessária captura ou sedação, diminuindo o risco para a gestante, feto e equipe técnica.
Palavras-chave: Ausculta fetal. Bem-estar. Manejo reprodutivo. Palpação. Pré-natal.
Introdução
A colônia de Macaca mulatta, localizada no Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos (ICTB) da Fiocruz, exerce um papel fundamental no avanço da pesquisa científica. Os primatas não humanos (PNH) têm sido modelos experimentais cruciais para o avanço do conhecimento biomédico, possibilitando descobertas significativas no campo das vacinas, medicamentos e no entendimento de diversas patologias (ANDRADE et al., 2010).
O condicionamento, baseado no reforço positivo, tem se mostrado uma ferramenta eficaz para reduzir o estresse dos animais em procedimentos veterinários, como coletas de sangue e exames de imagem, gerando resultados mais fidedignos, além de promover maior cooperação voluntária e diminuir a necessidade de contenção física ou sedação (LAMBETH et al., 2006). Em fêmeas gestantes, essa abordagem seria ideal, a fim de minimizar o estresse e os efeitos adversos que o anestésico pode acarretar à saúde do feto e ao desenvolvimento neurológico do recém-nascido.
Todos os procedimentos descritos estavam em conformidade com as normas da Comissão de Ética para o Cuidado e Uso de Animais Experimentais da FIOCRUZ (LW-19/23).
Objetivos
Dessensibilizar fêmeas de Macaca mulatta, através de técnicas de condicionamento operante com reforço positivo, para realização de exames clínicos pré-natais.
Metodologia
A criação de PNH do ICTB possui uma colônia voltada para reprodução de macacos rhesus. Visando mitigar o estresse e possíveis prejuízos à gestante e à prole, foram empregadas técnicas de condicionamento clássico e condicionamento operante com reforço positivo em seis grupos reprodutivos, cada um contendo seis fêmeas e um macho.
As sessões de treinamento se iniciaram antes do período reprodutivo, e perduraram durante e após a gestação das fêmeas (Imagem 1 e 2). Foi realizada uma sessão por dia, de segunda-feira a sexta-feira, com duração de cerca de dez minutos, podendo ser estendida ou finalizada de acordo com a resposta dos indivíduos.
Inicialmente foram realizados testes de preferência alimentar. Após alinhamento com o setor de nutrição animal, a maçã foi escolhida pelo baixo impacto nutricional e os sucos de manga e melancia por melhor aceitação. Além desses itens, bolinhas de geleia de banana com pó de ração também foram adicionados como reforço. O suco, ofertado em uma seringa de 60ml, permitia a realização de processos mais demorados, uma vez que os animais ficavam concentrados em ingerir o reforço.
O primeiro passo visou que os machos permitissem que as fêmeas se aproximassem e fossem reforçadas. Para isso, a sessão de treinamento se iniciava os chamando para a posição desejada e os reforçando com maçã. Inicialmente foi realizado um processo de dessensibilização, para que os animais aceitassem a aproximação de pessoas. Posteriormente, através do condicionamento clássico, começou o processo de associação do reforço alimentar com o clicker. Todas as vezes que um macho permitia a aproximação e reforço de uma fêmea ele era amplamente reforçado. Após o sucesso das etapas anteriores, as fêmeas foram treinadas para dessensibilização da palpação. Foram confeccionadas prateleiras, permitindo maior conforto dos animais durante o procedimento, além de janelas na grade para a passagem da mão do treinador (Imagem 1).
O passo seguinte com as fêmeas, foi fazer com que elas permitissem o toque na região abdominal. O treinador tocava o abdômen do indivíduo de forma leve e rápida, em todas as vezes emitindo o som do clicker e em seguida o reforçando. Em seguida, foi aumentado o tempo do toque. Nesta fase foi usado como reforço o suco na seringa. Com a dessensibilização do toque rápido, o treinador começou a aplicar uma leve pressão, fazendo movimentos similares ao procedimento de palpação. Conforme a aceitação, houve avanço e estabilização na realização da conduta.
Em uma das fêmeas participantes das sessões de condicionamento, foi realizada também a dessensibilização para o exame de doppler fetal para ausculta cardíaca (Imagem 3). O aparelho foi apresentado em etapas, para melhor aceitação do animal. Primeiramente, foi apresentado o transdutor do doppler fetal portátil. Quando o item passou a ser ignorado, o treinador passou a tocar o abdômen e peito do animal. Em seguida, foi adicionado o cabo do aparelho e feito o mesmo processo até que todas as partes estivessem montadas. O aparelho completo foi apresentado ao animal aos poucos, sendo deixado desligado próximo ao recinto enquanto o indivíduo era reforçado e, após aceitação, foi, inicialmente, utilizado desligado e sem gel. Conforme a resposta positiva do animal, o aparelho foi ligado e ajustado para o volume mínimo. Avançando com o treinamento, o volume foi aumentado gradualmente e, por fim, foi adicionado o gel no transdutor.
Resultados e Discussão
Alguns animais apresentaram evolução mais rápida que outros, porém, mesmo aqueles que não se aproximaram para efetivo procedimento, puderam ser suplementados e melhor visualizados durantes as sessões. Segundo Aihara (2020), se tratando de animais destinados a atividades experimentais, o condicionamento desempenha um papel crucial nos procedimentos que não podem ser realizados em animais anestesiados, pois reduz o estresse da contenção, facilita a condução de protocolos de pesquisa e os cuidados veterinários dos animais. Com a aplicação do condicionamento operante com reforço positivo, além da mitigação do estresse dos procedimentos, também é possível aumentar a segurança tanto dos animais, quanto das pessoas envolvidas em seu manejo (YOUNG; CIPRESTE, 2004). Isso garante uma maior segurança tanto para a mãe, quanto para o filhote, principalmente em colônias destinadas à reprodução.
Durante o condicionamento clássico os animais aceitaram os reforços oferecidos e associaram rapidamente o clicker. A aceitação do toque e a aplicação de pressão e movimentos foi aceita de maneiras diferentes em cada indivíduo, alguns animais logo se mantiveram concentrados em receber o reforço na seringa, enquanto outros inicialmente ficaram em estado de alerta, como o indivíduo da ausculta, evitando se posicionar de forma correta na estação de treinamento, mantendo o abdômen afastado da abertura do recinto. Os indivíduos foram amplamente reforçados todas as vezes que se posicionaram corretamente e permitiram a palpação. Para a conduta de ausculta, foram necessárias cerca de quatro semanas para que o animal apresentasse maior tolerância e aceitação, permitindo o toque e realização do procedimento completo, com a introdução do gel e o aumento do volume do aparelho.
Exames de imagem são cruciais para o monitoramento do desenvolvimento fetal e para a identificação precoce de alterações estruturais, sendo assim, o próximo passo é começar a dessensibilização para exames de ultrassom. Descobertas recentes sugerem que a exposição precoce ou em altas doses à anestesia durante a infância pode interferir e interromper o desenvolvimento estrutural do cérebro de macacos rhesus. Assim, torna-se essencial adotar maneiras alternativas ao uso de fármacos em procedimentos durante a gestação. Cirurgias eletivas e procedimentos que demandem anestesia devem ser cuidadosamente planejados para reduzir a exposição acumulada a anestésicos voláteis e, assim, minimizar possíveis riscos ao desenvolvimento cerebral (KIM et al., 2023).
Conclusão
A técnica de condicionamento se mostrou altamente eficaz para acompanhamento de fêmeas gestantes durante todo o período pré-natal, não sendo necessária captura ou sedação para o acompanhamento clínico gestacional, diminuindo o estresse e o risco para a gestante, feto e toda a equipe técnica.
Referências
AIHARA, M. Condicionamento operante de primatas não humanos como ferramenta de aprimorar o bem-estar animal e viabilizar protocolos científicos. Dissertação (Mestrado profissional em Ciência em Animais de Laboratório) - Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos, Fundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, p. 127. 2020.
ANDRADE, M. C. R. et al. Biologia, Manejo e Medicina de Primatas Não Humanos na Pesquisa Biomédica. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2010.
KIM, J.; et al. Effects of multiple anesthetic exposures on rhesus macaque brain development: a longitudinal structural MRI analysis. Cerebral Cortex, v. 34, n. 1, p. bhad463, 23 dez. 2023.
LAMBETH, S. P. et al. Positive reinforcement training affects hematologic and serum chemistry values in captive chimpanzees (Pan troglodytes). American Journal of Primatology, v. 68, n. 3, p. 245–256, 2006.
YOUNG, R. J.; CIPRESTE, C. F. Applying animal learning theory: training captive animals to comply with husbandry and veterinary procedures. Animal Welfare, [S.l.], v. 13, p. 225-232. 2004.
