Manejo cooperativo e acessibilidade em recinto de Macaca mulatta: implicações para o bem-estar animal
Palavras-chave:
Acessibilidade, Animais idosos, Condicionamento operante, ManejoResumo
Resumo
Primatas sob cuidados humanos demandam estratégias que integrem bem-estar, manejo e acessibilidade. Em um recinto com nove indivíduos, incluindo idosos e com limitações motoras, foram realizadas adaptações estruturais e condicionamento com reforço positivo. As mudanças favoreceram mobilidade, acesso a recursos e autonomia. O treinamento possibilitou suplementação, administração de fármacos, contenção voluntária e manejo clínico com redução de estresse. Conclui-se que a abordagem integrada otimiza o cuidado e promove qualidade de vida e bem-estar animal.
Palavras-chave: Acessibilidade. Animais idosos. Condicionamento operante. Manejo.
Introdução
A colônia de M. mulatta localizada no Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos (ICTB/Fiocruz) desempenha papel fundamental no avanço científico, o que reforça a necessidade de estratégias de manejo que assegurem elevados padrões de bem-estar. A manutenção desses animais sob cuidados humanos exige a adoção de práticas baseadas em evidências que considerem aspectos físicos, comportamentais e psicológicos, em consonância com os princípios dos “Cinco Domínios” do bem-estar animal (MELLOR; BEAUSOLEIL, 2015).
Entre os principais desafios nesse cenário, destaca-se o manejo de indivíduos idosos ou com mobilidade comprometida, cujas limitações físicas podem impactar diretamente a capacidade de locomoção, acesso a recursos e interação social. Nessas condições, a ausência de adaptações adequadas pode levar à redução da atividade, isolamento e prejuízos ao bem-estar geral (MASON, 2010), tornando essencial a implementação de modificações estruturais que favoreçam a acessibilidade e a autonomia dos indivíduos no recinto (BLOOMSMITH; LAMBETH; STONE, 2015).
Além das adaptações ambientais, o condicionamento operante com reforço positivo tem se consolidado como uma ferramenta fundamental no manejo de primatas não humanos, permitindo a realização de procedimentos clínicos e zootécnicos de forma voluntária e menos invasiva. Essa abordagem reduz significativamente o estresse associado à contenção física tradicional, além de promover maior previsibilidade e controle por parte do animal (WESTLUND, 2015; FERNANDEZ et al., 2009).
Todos os procedimentos descritos estão em conformidade com as normas da Comissão de Ética para o Cuidado e Uso de Animais Experimentais da FIOCRUZ (LW-19/23).
Objetivos
Descrever a adaptação de um recinto e as estratégias de manejo adotadas para promover bem-estar, acessibilidade e integração social em um grupo de macacos rhesus com diferentes necessidades clínicas e comportamentais.
Metodologia
O estudo foi conduzido em um recinto onde são mantidos nove indivíduos de Macaca mulatta, incluindo animais idosos, os quais demandam atenção diferenciada quanto ao manejo e às condições de acessibilidade. Dentre eles, destaca-se um indivíduo que apresenta limitação de flexão e hiperextensão dos membros, decorrente de lesão neurológica adquirida na infância. Além disso, há um animal diagnosticado com osteoartrose em articulação de joelho e outro com osteoartrose bilateral, condições que impactam diretamente a locomoção e o uso do espaço, reforçando a necessidade de adaptações estruturais e estratégias de manejo específicas para promoção do bem-estar.
As modificações incluíram a instalação de rampas, escadas para acesso às prateleiras mais altas, prateleiras dispostas em diferentes alturas com menor inclinação, além de estruturas de apoio como redes, cordas, pontos de fuga, cama e escada confeccionada com mangueira de bombeiro, visando reduzir o esforço físico e ampliar a área de uso do recinto.
Adicionalmente, foram ajustadas a disposição de itens de enriquecimento ambiental e de alimentação, garantindo acessibilidade e estimulando comportamentos naturais. Paralelamente, foram adotadas estratégias de manejo baseadas em condicionamento operante com reforço positivo, incluindo sessões de condicionamento para facilitar procedimentos de rotina. Nesse contexto, foi realizada a oferta de bolinhos contendo suplementação, associada ao treino dos animais para aceitação voluntária.
Também foi confeccionado e utilizado um túnel de captura, empregado como alternativa ao uso de puçá, permitindo a contenção voluntária dos indivíduos a partir de chamadas e fechamento de portinholas laterais. Tanto a suplementação quanto o uso do túnel foram viabilizados por meio do condicionamento, possibilitando ainda a realização de toque e palpação voluntários.
As intervenções foram realizadas de forma gradual, com acompanhamento ao longo de aproximadamente um ano, incluindo monitoramento comportamental ad libitum contínuo para avaliação da utilização das estruturas e do impacto sobre o bem-estar dos animais.
Resultados e Discussão
As adaptações estruturais e estratégias de manejo adotadas promoveram melhora na acessibilidade e maior utilização do recinto pelos indivíduos com limitações locomotoras, especialmente animais idosos e com comprometimento corporal. A literatura destaca que a adequação do ambiente às limitações físicas dos indivíduos é fundamental para garantir a expressão de comportamentos naturais e a manutenção do bem-estar. A disponibilização de prateleiras em diferentes alturas, estruturas de apoio e superfícies acessíveis favorece o uso tridimensional do espaço e reduz o esforço físico necessário para locomoção (BLOOMSMITH; LAMBETH; STONE, 2015; MASON, 2010).
A implementação do condicionamento operante com reforço positivo mostrou-se fundamental para viabilizar intervenções clínicas e nutricionais de forma menos invasiva, essa técnica tem sido amplamente descrita como ferramenta eficaz para manejo cooperativo em zoológicos e instituições de pesquisa, reduzindo respostas de estresse e facilitando procedimentos clínicos (FERNANDEZ et al., 2009; WESTLUND, 2015).
Animais idosos e com baixo peso passaram a receber suplementação por meio de bolinhos hipercalóricos acrescidos de Aminomix®, com aceitação voluntária após o condicionamento. De maneira semelhante, foi possível realizar a administração de vermífugo por via oral, bem como a contenção voluntária no túnel de captura para aplicação de medicações injetáveis, eliminando a necessidade do uso de puçá e reduzindo significativamente as respostas de estresse associadas à contenção física tradicional. Esses resultados reforçam que o treinamento permite a execução de procedimentos potencialmente aversivos com menor impacto negativo ao animal, conforme descrito por Schapiro et al. (2003), que destacam a redução de estresse fisiológico em primatas treinados para cooperar em manejos.
O uso do túnel também possibilitou a captura direcionada e o encaminhamento seguro dos indivíduos ao ambulatório para manejo veterinário. A substituição do uso de puçá pela captura voluntária por meio do túnel representa um avanço relevante, uma vez que métodos tradicionais de contenção física estão associados a respostas comportamentais e fisiológicas adversas, incluindo aumento de cortisol e comportamentos de fuga (MASON, 2010). Nesse contexto, o condicionamento operante é apontado como estratégia que melhora tanto a segurança dos animais quanto da equipe técnica durante os manejos (WESTLUND, 2015). Além disso, o condicionamento favoreceu a aproximação voluntária dos animais, permitindo inspeção visual detalhada, identificação precoce de lesões, realização de toque e palpação, bem como a aplicação de medicações tópicas.
Conclusão
A integração entre adaptações ambientais e treinamento baseado em reforço positivo demonstrou ser uma estratégia eficaz para o manejo de primatas com mobilidade comprometida, contribuindo diretamente para a melhoria do bem-estar, redução do estresse e ampliação das possibilidades de cuidado clínico contínuo.
Referências
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