Condicionamento operante como estratégia para administração de medicação em Macaca mulatta com epilepsia: relato de caso

Autores

  • Gabriela Souto Braga
  • Mika Ester Aihara
  • Letícia Oliveira da Silva
  • Mônica Ingeborg Zuege Calado
  • Gabriel de Moraes Leal
  • Renato Pereira Batista
  • Paulo Ricardo Ferreira Filho da Silva

Palavras-chave:

Anticonvulsivante, Bem-estar, Manejo, Primatas não humanos

Resumo

ResumoCondicionamento operante com reforço positivo de dois macacos rhesus com epilepsiaidiopática para aceitação voluntária de medicação anticonvulsivante oral. Foram realizadassessões para aproximação e identificação de preferências alimentares, selecionando-se bolinhoscomo veículo para administração do fármaco. Os resultados demonstraram aceitação voluntáriada medicação por ambos os indivíduos. Concluiu-se que o uso do condicionamento operantefoi eficaz para a administração contínua do medicamento, reduzindo o estresse e a necessidadede contenção física, além de contribuir para o bem-estar e a qualidade de vida dos animais.Palavras-chave: Anticonvulsivante. Bem-estar. Manejo. Primatas não humanos.IntroduçãoO Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos (ICTB) é uma Unidade da FundaçãoOswaldo Cruz (Fiocruz) responsável pela criação e manutenção de biomodelos destinados à pesquisabiomédica. Dentre os primatas não humanos (PNH) mantidos em suas instalações, os macacos rhesus(Macaca mulatta) contribuem para o avanço do conhecimento científico voltado ao diagnóstico,prevenção e tratamento de enfermidades(PISSINATTI, GOLDSCHMIDT; SOUZA, 2010).Para os PNH criados sob cuidados humanos, manter um ambiente enriquecido e condiçõesadequadas de manejo são fatores primordiais à manutenção da saúde, ao bom desenvolvimentocomportamental e desempenho do animal (FRAJBLAT; AMARAL; RIVERA, 2008). Neste contexto, ocondicionamento operante com reforço positivo configura-se como estratégia fundamental, ao associarcomportamentos desejados a recompensas, favorecendo o manejo e a execução de procedimentosveterinários e reduzindo o estresse dos animais(SALES et al., 2025).O alto grau de similaridade anátomo-funcional e genética sugere que distúrbios neurológicosobservados em primatas podem prover informações importantes à sua compreensão em humanos. Dentreestes distúrbios, as crises convulsivas comumente observadas podem ter origem genética (idiopática) mastambém decorrentes de traumas, infecções, anormalidades estruturais ou metabólicas, entre outras causase exigem acompanhamento clínico e/ou controle anticonvulsivante. O fenobarbital é o principalfármaco para tratar crises convulsivas, e o mais utilizado em zoológicos(CROLL, SZABO, ABOUMADI, DEVINSKY, 2019). Contudo, por se tratar de uma terapia contínua e de administraçãodiária,seu fornecimento pode representar um desafio no manejo, principalmente quando nãoé recomendado o uso de contençõesfísicas para evitar estresse do indivíduo.ObjetivosRelatar o processo do condicionamento operante de dois macacosrhesus epiléticos para aceitaçãodiária de medicação oral anticonvulsivante.MetodologiaO estudo foi conduzido com dois machos da espécie M. mulatta, com cerca de 10 anos,identificados como indivíduo n° 1 e n° 2, mantidos sob cuidados humanos no ICTB. Ambos vivem emrecintos e grupos sociais diferentes e não apresentam nenhum grau de parentesco.Foi identificado, pela equipe técnica, que dois indivíduos apresentavam quadros de convulsõesesporádicas. Os animais foram submetidos a exames clínico-laboratoriais e de ressonância magnética,onde não foram detectadas anomalias estruturais ou quaisquer outras causas adjacentes para as crisesconvulsivas, presumindo-se epilepsia idiopática. Com base neste diagnóstico, a equipe veterinária optoupelo fenobarbital sódico, na dose de 0,6mg.kg-1 para controle das convulsões.Por se tratar de medicação oral de uso contínuo e a fim de evitar estresse de captura, contenção ouisolamento do grupo, a equipe de bem-estar animal deu início ao trabalho de condicionamento dos doisindivíduos. Foram utilizadas técnicas de condicionamento operante com reforço positivo. Inicialmente, osindivíduos foram mantidos no refúgio de seus respectivos recintos,separados dos demais animais dogrupo, para melhora clínica após quadro de convulsão.As primeiras cinco sessões tiveram por objetivos avaliar a aceitação da aproximação dos técnicosde manejo e verificação das preferências alimentares de cada animal. Os animais eram chamados à gradedo refúgio condicionando-os à aproximação sistemática do treinador e, sempre que o faziam, eramreforçados com frutas ou sucos de frutas in natura e bolinhos confeccionados com geleia de banana eração ou batata doce cozida, com ovos e aveia, a fim de aferir suas preferências.Tendo sido verificada a preferência por bolinhos de geleia e ração, o medicamento foi entãoadicionado de duas maneiras: a) diretamente na massa do bolinho e b) agregando pó de ração às gotas domedicamento e incorporando a mistura à massa do bolinho. As duas formas de apresentação foramofertadas, visando detectar rejeição do fármaco por alterações na palatabilidade.Consolidada a aceitação individual, ambos os animais foram reconduzidos aos seus grupos einiciou-se uma nova etapa do condicionamento, voltada à aceitação do fármaco em presença dos demaisindivíduos. Esta etapa demandou a atuação de dois treinadores, inicialmente, onde um treinador atraía osindivíduos dominantes pela grade do recinto com uso de frutas e bolinhos, enquanto o segundo treinadoratraía o animal alvo com o bolinho contendo medicação anticonvulsivante.Esse procedimento foi repetidoem cerca de 30 sessões, com a retirada gradual do segundo treinador, até que apenas um profissional fossecapaz de realizar a oferta da medicação com sucesso.As primeirassessões de aproximação e preferência alimentar, tiveram duração de cinco dias,foram todas realizadas no mesmo horário por volta das dez horas e com duração de cinco a dez minutos,todas respeitando os possíveissinais de desconforto e comportamentos aversivos. As seguintes sessões,após a introdução da medicação foram feitas diariamente no mesmo horário, com duração variável até oanimal aceitar o bolinho com o medicamento.Resultados e DiscussãoDurante a primeira fase do condicionamento (aproximação e preferência alimentar), os doisindivíduos aproximavam-se rapidamente quando chamados, mantendo boa aceitação para ambas asformas de apresentação dos bolinhos, porém, um dos machos (indivíduo n°1) não apresentou boadisposição para ingestão de suco de frutas. Desta forma, foi descartada esta segunda via de administraçãodo medicamento, reforçando a importância da individualização das estratégias de manejo.Ao testar a forma de administração do medicamento no bolinho, optou-se por usar o deração triturada com geleia banana, devido a praticidade de fazê-lo diariamente. Quanto à forma de adiçãodo medicamento aos bolinhos, notou-se uma preferência pela agregação do fármaco ao pó de ração eposterior incorporação à massa, resultado que sugere melhor homogeneização e menor rejeição sensorial,aspecto também destacado na literatura como relevante para garantir ingestão completa da dose prescrita(MCCULLOUGH et al., 2022).Na etapa subsequente, com os animais em seus recintos de origem, a necessidade de ajustes noprotocolo evidenciou a influência da dinâmica social sobre o condicionamento. O aumento da oferta dereforçadores para outros indivíduos do grupo foi essencial para minimizar competição e interferênciadurante o fornecimento da medicação, especialmente em recintos com maior densidade populacional oupresença de indivíduos dominantes, considerando que o indivíduo n° 1 vive em um recinto com outros 15animais, dos quais a maioria se aproxima para receber recompensas, enquanto o n° 2 habita outro recintocom mais seis indivíduos, incluindo um macho de status hierárquico superior. Estudos com primatassociais demonstram que fatores hierárquicos e disputas por recursos podem impactar diretamente o acessoao reforço e o sucesso do treinamento (PRESCOTT; BUCHANAN-SMITH, 2017).No contexto clínico, a adoção do condicionamento para administração oral de medicamentosapresenta relevância significativa no manejo de animais com epilepsia que, em primatas não humanos,apresenta características clínicas e neurofisiológicas semelhantes às observadas em humanos (LOSCHER,2020). O tratamento exige administração contínua e rigorosa de fármacos anticonvulsivantes, sendo aadesão terapêutica um fator crítico para o controle das crises (FISHER et al., 2017).Nesse sentido, o treinamento baseado em reforço positivo se mostra uma ferramenta essencial,pois permite a administração voluntária da medicação, reduzindo significativamente a necessidade decontenção física. A contenção frequente está associada ao aumento de estresse, alterações fisiológicas ecomprometimento do bem-estar animal, podendo inclusive exacerbar quadros neurológicos(SCHAPIRO; BLOOMSMITH, 2019; LAULE et al., 2020). Assim, o condicionamento não apenasfacilita o manejo clínico, mas também atua diretamente na promoção do bem-estar, alinhando-se aosprincípios dos 3Rs e dos cinco domínios do bem-estar animal.ConclusãoOs resultados obtidos reforçam que a adaptação individualizada das estratégias decondicionamento, aliada à compreensão das interações sociais e preferências alimentares, é fundamentalpara o sucesso da administração medicamentosa em primatas com doenças crônicas.ReferênciasCROLL, L.; SZABO, C. A.; ABOU-MADI, N.; DEVINSKY, O. Epilepsy in nonhuman primates.Epilepsia, [S.l.], v. 60, n. 8, p. 1526-1538, ago. 2019.FISHER, R. S. et al. Operational classification of seizure types by the International League AgainstEpilepsy. Epilepsia, [S.l.], v. 58, n. 4, p. 522–530, 2017.FRAJBLAT, M.; AMARAL, V. L. L.; RIVERA, E. A. B. Ciência em animais de laboratório. Ciência eCultura, São Paulo, v. 60, n. 2, p. 44-46, 2008.LAULE, G.; BLOOMSMITH, M. A.; SCHAPIRO, S. J. 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Animal Welfare, [S.l.], v. 26, n. 3, p. 283–296, 2017.SALES, C. D. S. et al. Condicionamento operante para o manejo e o bem-estar de cateto (Pecari tajacu):relato de caso. São José dos Campos, 2025.SCHAPIRO, S. J.; BLOOMSMITH, M. A. Behavioral management of laboratory primates: training andenrichment. ILAR Journal, [S.l.], v. 60, n. 1, p. 1–15, 2019.

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Publicado

2026-08-24