CONFLITOS ANTRÓPICOS COM GUARIBAS-DE-MÃOS-RUIVAS (ALOUATTA BELZEBUL): UMA SÉRIE DE CASOS NA PARAÍBA, BRASIL
Palavras-chave:
Conservação, Primatas Ameaçados, ReabilitaçãoResumo
A intensificação da fragmentação florestal na Mata Atlântica nordestina tem ampliado a interface entre humanos e primatas, elevando a ocorrência de conflitos e seus impactos sobre espécies ameaçadas. Nesse contexto, Alouatta belzebul, primata Vulnerável e endêmico do Brasil, apresenta populações isoladas em fragmentos florestais da Paraíba, frequentemente inseridos em matrizes urbanas e agroindustriais. Este estudo analisa quatro eventos de interação antrópica envolvendo a espécie, registrados entre fevereiro e maio de 2022, com o objetivo de compreender os principais vetores de conflito e avaliar os desfechos de manejo e reabilitação. Os indivíduos foram resgatados em áreas urbanizadas ou periurbanas e encaminhados ao Centro de Triagem de Animais Silvestres da Paraíba, onde passaram por protocolos integrados de quarentena sanitária, avaliação clínica e enriquecimento ambiental, visando restabelecimento fisiológico e comportamental para reintrodução. Os casos envolveram diferentes tipologias de impacto: agressão direta por humanos, tentativa de caça com arma de pressão, desorientação em matriz antrópica associada à perda de habitat e ataque por cães domésticos durante deslocamento entre fragmentos. Três dos quatro indivíduos foram reabilitados com sucesso e reintroduzidos em uma Unidade de Conservação específica para a manutenção da espécie, enquanto um evoluiu a óbito em decorrência de trauma severo. Os registros evidenciam que a fragmentação da paisagem atua como fator central na exposição da espécie a riscos múltiplos, intensificando encontros com humanos e animais domésticos. Além disso, aspectos intrínsecos à história de vida de A. belzebul, como baixa fecundidade e dependência de conectividade florestal, amplificam a vulnerabilidade populacional frente a perdas individuais. Os resultados indicam que a mitigação desses conflitos depende de abordagens integradas que articulem manejo da paisagem, restauração de conectividade, educação ambiental e controle de pressões locais. A conservação da espécie na região requer, portanto, estratégias que transcendam ações pontuais de resgate, incorporando planejamento territorial e engajamento social.
