DESCRIÇÃO DE PLANO ANESTÉSICO EM BARATAS-DE-MADAGASCAR (Gromphadorhina portentosa)
Palavras-chave:
anestesia, artrópodes, guedelResumo
A preocupação com o bem-estar animal e a ampliação do conhecimento da senciência faunística têm impulsionado o manejo ético de invertebrados, como, por exemplo, o uso de analgesia e anestesia durante procedimentos potencialmente dolorosos (1). A anestesia de invertebrados ainda é um campo pouco explorado, com escassez de informações a respeito da anestesia de baratas-de-Madagascar (2, 3). Não há dados sobre parâmetros anestésicos para esses artrópodes, com foco na segurança e eficácia do procedimento, por isso, o objetivo deste trabalho é caracterizar os estágios do plano anestésico em baratas-de-Madagascar, a partir dos estabelecidos por Guedel (4). Doze indivíduos adultos (6 machos e 6 fêmeas) foram submetidos à anestesia inalatória com isoflurano, e foram observados quanto à profundidade, reação, e efeitos adversos para descrição dos estágios anestésicos. Os animais foram colocados em uma câmara anestésica circular (15 x 13cm), e foram pré-oxigenados por 5 minutos. A concentração do isoflurano foi iniciada em 1%, e era aumentada, a cada 2 minutos, em 0,5%. Os estágios e efeitos foram representados na Tabela 1 e Figura 1. No estágio 1, 2/12 dos animais atingiram decúbito. No estágio 2, todos os animais defecaram e duas fêmeas vomitaram, com presença de excitabilidade, que foi mais proeminente nos machos, que se locomoviam descoordenadamente, tinham tremores em membros e ficavam sustentados apenas pelos dois membros posteriores, além de ocorrer a exposição de falo. As fêmeas apresentaram excitação mais discreta, com tremores e contração abdominal. O estágio 3 foi atingido com a vaporização de isoflurano a 6%, por pelo menos dez minutos. O estágio 4 foi observado em apenas um indivíduo que apresentou prolapso intestinal. O reconhecimento dos estágios anestésicos é essencial para que seja evitada a overdose, recuperação prolongada e distúrbios hemodinâmicos. Com este estudo, foi possível evidenciar a importância do jejum pré-anestésico em artrópodes, tendo em vista que 16,6% dos animais vomitaram na indução anestésica, e todos defecaram. Mesmo que o vômito não implique em uma falsa via, uma vez que a boca das baratas é distante dos espiráculos (5), seria importante reduzir o desconforto e enjôo no procedimento. Um estudo prévio de anestesia em baratas-de-Madagascar analisou apenas o tempo de indução e recuperação (2), enquanto em outro foi proposta uma escala de pontuação de estímulo motor, similar às de sedação em mamíferos, com pontuação de 1 a 4, classificada progressivamente em movimento coordenado, movimento atáxico, pouco movimento e ausência de movimento (3). A escala apresentada neste trabalho é inédita para a espécie e complementa as informações disponíveis, por abranger outras avaliações direcionadas à determinação do plano anestésico, bem como à sua profundidade. Embora apresentem parâmetros de avaliação em comum, elas possuem empregos diferentes frente à rotina anestésica. Recomenda-se maiores estudos sobre protocolos anestésicos para a espécie, com foco na anestesia balanceada e multimodal para suprimir os efeitos do estágio 2, frequentemente associado a delírios e excitação (4). Este trabalho fornece dados importantes para o avanço da anestesia em artrópodes e colabora com o manejo voltado ao bem-estar animal, frente à senciência dos invertebrados.Downloads
Publicado
2026-03-01
Edição
Seção
Resumo Cientifico
