MENSURAÇÃO DOS NÍVEIS SÉRICOS DE PROGESTERONA PARA AVALIAÇÃO REPRODUTIVA EM FÊMEAS DE PEIXE-BOI-MARINHO (Trichechus manatus)

Autores

  • João Vitor de Oliveira Gurgel
  • Juliana Maia de Lorena Pires
  • Fernando da Costa Fernandes
  • João Maurício Ferreira Aguiar
  • Matheus Félix Martins Paiva
  • João Victor Pessoa Fernandes
  • Augusto Carlos da Bôaviagem Freire
  • Alexandre Rodrigues Silva

Palavras-chave:

conservação, hormônio, sirênios

Resumo

O peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) é um mamífero aquático classificado mundialmente como vulnerável pela IUCN e em perigo de extinção no Brasil pelo ICMBio (1). Sua puberdade inicia-se entre três e quatro anos, associada a uma baixa taxa reprodutiva, que é justificada por uma gestação longa de 12 a 14 meses e, normalmente, nascimento de apenas um filhote, lactente por até dois anos (2). Os animais encalhados, majoritariamente neonatos, são resgatados nas praias por equipe técnica capacitada e encaminhados a um centro de reabilitação de fauna marinha e, após o desmame, translocados ao recinto de aclimatação (Figura 1), permanecendo no mínimo seis meses antes da soltura, em um grupo de até seis indivíduos que pode incluir machos e fêmeas. Dados reprodutivos referentes à espécie são incipientes na literatura, dessa forma, o objetivo deste trabalho é relatar a aplicabilidade da mensuração sérica de progesterona como exame complementar na avaliação reprodutiva de fêmeas de peixe-boi-marinho em processo de reabilitação. Uma fêmea de cinco anos e quatro meses mantida no recinto de aclimatação apresentou ganho progressivo de peso, constatando-se, através de avaliações clínicas e biometria trimestrais, um peso de 459,2 kg, representando um ganho de 55,7 kg em um intervalo de seis meses, um aumento de peso expressivo para animais mantidos na aclimatação pré-soltura, tendo em vista a maior atividade física devido à dinâmica de marés, recinto amplo e alimentação compartilhada pelo grupo. Concomitantemente registrou-se nos etogramas comportamento frequente de corte e cópula com um macho de cinco anos e sete meses, o que levou à suspeita de gestação. Optou-se por destinar parte das amostras de sangue coletadas (Autorização SISBIO 13694-15) de sete fêmeas no último manejo do plantel, incluindo animais juvenis do centro de reabilitação, para avaliação sérica de progesterona, com o objetivo de detectar uma possível gestação e obter valores para fins comparativos (Tabela 1). A fêmea com comportamento de cópula apresentou lt;1,0 ng/mL de progesterona sérica, indicando ausência de gestação. Das demais fêmeas avaliadas, apenas duas (28,57%) obtiveram valores acima de 1,0 ng/mL, ambas tinham idade acima de quatro anos e meio, no entanto, não houve correlação com o ambiente em que estavam sendo mantidas. A progesterona desempenha papel fundamental na manutenção e progresso da gestação em mamíferos por promover a quiescência uterina, assim, o aumento dos seus níveis plasmáticos pode predizer a fase gestacional (3). Sugere-se, pela dosagem de progesterona e estrógeno sérico, que a fêmea de peixe-boi-marinho só alcança a maturidade sexual plena entre cinco e seis anos (4). Fêmeas prenhes selvagens apresentaram variação na concentração de progesterona de 1,0 a 5,6 ng/mL na primeira metade da gestação (5). Devido ao grande porte destes animais, contenções físicas frequentes para coletas sanguíneas tornam-se inviáveis, dificultando avaliações precisas da fase reprodutiva por meio da mensuração seriada de progesterona. Ainda que mais estudos sejam necessários para maior elucidação acerca da reprodução do peixe-boi-marinho, neste caso, o método descrito teve relevância clínica, pois foi eficiente para diagnosticar ausência de gestação.

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Publicado

2026-03-01