MANEJO CLÍNICO E SENSORIAL EM TUCANO-TOCO (Ramphastos toco) COM CEGUEIRA BILATERAL
Palavras-chave:
adaptação espacial, aves silvestres, oftalmologiaResumo
A deficiência visual representa um desafio no manejo de aves silvestres ex situ. Aves com deficiência visual podem apresentar qualidade de vida adequada quando submetidas a protocolos específicos de manejo (1). Ranfastídeos possuem particularidades anatômicas, como visão lateralizada acentuada e campo binocular reduzido, intensificando os desafios comportamentais (2). O objetivo deste trabalho é relatar o manejo de tucano-toco (Ramphastos toco) com cegueira bilateral mantido sob cuidados humanos. Um tucano-toco de três meses aproximadamente, sexo indeterminado, 0,34 kg, foi resgatado em novembro/2023 e levado a um Hospital Veterinário em Uberaba-MG, apresentando cegueira bilateral. No exame oftalmológico apresentou atrofia do olho esquerdo, possivelmente de origem traumática, mas sem histórico da causa, e perfuração do olho direito, sendo submetido à enucleação (Figura 1). O exame radiográfico de crânio, anterior à enucleação, não revelou fraturas ou alterações ósseas (Figura 2). O manejo consistiu em alimentação manual duas vezes ao dia, oferecendo 20% do peso corporal em dieta com ração para tucanos e frutas. A ave foi mantida em gaiola (1,15x0,8x0,95m) com poleiros na diagonal e bebedouro sempre no mesmo local. O animal desenvolveu um mapeamento espacial por meio de batidas da ranfoteca nas grades da gaiola e objetos, conseguindo, posteriormente, movimentar-se sem colisões e, após seis semanas, desenvolver capacidade de localização independente do bebedouro e poleiro. Observou-se melhora progressiva da acuidade auditiva, com reconhecimento de sons específicos durante a abertura da gaiola e aproximação do tratador após 12 meses. Após um ano, foi transferido para mantenedouro de fauna silvestre licenciado, onde permanece com protocolo similar. Após 20 meses do atendimento inicial, retornou para nova avaliação, passando por exame ultrassonográfico ocular, demonstrando ausência do bulbo ocular direito (enucleado), e a presença de estruturas amorfas de ecogenicidade distintas na órbita esquerda, entrando em consenso com a análise oftalmológica de atrofia (Figura 2). Não houve complicações decorrentes da enucleação e atrofia do olho contralateral (Figura 2). Atualmente a ave apresenta 0,62 kg, ausência de estereotipias, mantendo somente dependência para alimentação, contudo demonstrando autonomia para hidratação e movimentação no recinto. O protocolo de manejo oferecido demonstra viabilidade de manejo desta espécie com deficiência visual em ambientes controlados (1,3). A melhora da acuidade auditiva e desenvolvimento de estratégias compensatórias de orientação espacial são consistentes com adaptações neuroplásticas descritas em aves cegas, incluindo maior dependência sensorial do tato para navegação (3). O desenvolvimento de técnicas de mapeamento tátil com a ranfoteca representa adaptação comportamental específica, não previamente descrita em ranfastídeos (2). O protocolo de alimentação manual mostrou-se eficaz, evitando procedimentos invasivos como gavagem. A manutenção do mesmo ambiente e rotinas permanentes foram fundamentais para o sucesso adaptativo (4). O ganho de peso adequado para a espécie indica sucesso nutricional do protocolo adotado. A soltura observada em aves de rapina com lesões oculares (5) sugere que avaliações oftalmológicas detalhadas são fundamentais para decisões de manejo controlado. O manejo prolongado de tucano-toco com cegueira bilateral demonstrou ser viável, resultando no desenvolvimento de mecanismos adaptativos específicos e reforçando a viabilidade de manutenção em ambiente controlado com protocolo de manejo em casos similares.Downloads
Publicado
2026-03-01
Edição
Seção
Relato de Caso
