RETALHO DE AVANÇO UNIPEDICULADO PARA CORREÇÃO DE DEFEITO CUTÂNEO NA CAUDA DE OURIÇO-CACHEIRO (Coendou spinosus)

Autores

  • Cléo Mendes Vargas
  • Júlia Benvegnú Karlinski
  • João Pedro Nunes Soares
  • Ana Carolina Contri Natal
  • Paola Antunes Rodrigues
  • Roberta Picoli
  • Roger Ferreira Gomes
  • Lívia Eichenberg Surita
  • Marcelo Meller Alievi

Palavras-chave:

caudectomia, cirurgia reconstrutiva, flap de pele

Resumo

O ouriço-cacheiro (Coendou spinosus) é um animal arborícola que utiliza seus membros para locomover-se por entre os galhos (1), mas a expansão das áreas urbanas submete os animais silvestres à perda de habitat, deixando-os vulneráveis a traumas que podem necessitar intervenção veterinária (2). O objetivo deste trabalho é descrever a realização de um retalho de avanço unipediculado para correção de defeito cutâneo na cauda de um exemplar da espécie Coendou spinosus. Recebeu atendimento veterinário um ouriço-cacheiro de vida livre, macho, adulto, pesando 1,1kg, apresentando trauma na cauda com extensa perda de tecido cutâneo e ósseo. Antes de sua chegada, havia sido aplicada sulfadiazina de prata em spray na lesão. No exame clínico, o paciente estava responsivo, moderadamente desidratado, hipocorado e demais parâmetros normais. Iniciada terapia com meloxicam (0,2mg/kg IM BID por 5d), cloridrato de tramadol (4mg/kg IM BID por 16d), dipirona sódica (25mg/kg VO BID por 25d), ceftazidima (40mg/kg IM BID por 13d), metronidazol (40mg/kg VO BID por 20d) e fluidoterapia. Realizada contenção química para limpeza do ferimento, visando reduzir a contaminação local e retirar tecidos desvitalizados. O animal foi submetido a exame radiográfico, hemograma e bioquímicos, que demonstraram anemia (hematócrito 24% ref. 39-55%) e leucocitose (27.2x10³/µL ref. 2.9-14.4x10³/µL) (3). Uma semana após admissão, o paciente foi encaminhado para amputação da vértebra caudal remanescente (1ª vértebra caudal) e realização de um flap de pele. O procedimento foi conduzido sob protocolo anestésico inicial (MPA) por midazolam (0,5 mg/kg, IM), cetamina (0,5 mg/kg, IM) e morfina (1 mg/kg, IM) e, posteriormente, com isofluorano. O paciente foi posicionado em decúbito esternal com a região pélvica elevada e após antissepsia e isolamento do campo operatório, com auxílio de uma goiva, a vértebra foi removida, mantendo íntegra pele e musculatura da porção ventral proximal da cauda. Posteriormente, realizada lavagem copiosa com solução fisiológica estéril no leito receptor e doador. Para correção do defeito, um retalho de avanço unipediculado foi criado a partir da pele e musculatura restantes, que tiveram seus bordos cutâneos desbridados. Na síntese cirúrgica, aproximação da musculatura foi realizada com sutura padrão Sultan e fio mononylon 3.0, redução de subcutâneo padrão zigue-zague com fio poliglecaprone 3.0 e dermorrafia padrão isolado simples com fio mononylon 3.0, garantindo mínimo de tensão na sutura (Figura 1). No pós-operatório, o animal recebeu novamente meloxicam (0,2mg/kg IM SID por 3d), continuou com medicações supracitadas e realizada limpeza da ferida cirúrgica com troca de curativos diários. Durante o procedimento, não foi possível visualização total da circulação caudal, portanto o retalho de avanço unipediculado foi classificado como subdérmico, ou seja, depende do plexo subcutâneo para garantir perfusão. Flaps de áreas adjacentes às receptoras são um método prático para fechamento de feridas não acessíveis à oclusão direta e cirurgias reconstrutivas tornaram-se opção viável para consolidar defeitos secundários a traumas (4). Relatos de mamíferos arborícolas que sobreviveram à amputação de membros sugerem que o ouriço-cacheiro pode se adaptar bem à perda de sua cauda (5). Um mês após cirurgia, a lesão encontrava-se com aceitação do retalho e adequada cicatrização, mostrando resultado satisfatório do procedimento.

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Publicado

2026-03-01