EVIDÊNCIA DE AGRESSÃO INTRAESPECÍFICA EM JUVENIS DE Myrmecophaga tridactyla DE VIDA LIVRE

Autores

  • Débora Andrade Quintino
  • Grazielle Soresini
  • Pablo Dutra
  • Rafael Ferraz
  • Camila Sanches
  • Danilo Kluyber
  • Arnaud Desbiez

Palavras-chave:

Comportamento animal, conservação, manejo clínico

Resumo

O tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), maior representante da ordem Pilosa, está classificado como vulnerável à extinção (1) e apresenta comportamento predominantemente solitário, com escassos registros documentados de agressões intraespecíficas em vida livre (2). Este relato descreve o manejo clínico de dois juvenis, um macho e uma fêmea, com cerca de um ano de idade e separados de suas mães há aproximadamente seis meses — fase crítica de vulnerabilidade. Ambos eram monitorados com coletes equipados com tecnologia GPS e VHF, em uma fazenda localizada dentro de uma Área de Proteção Ambiental (-20.4756, -54.5401), no Mato Grosso do Sul, Brasil. Em 23 de janeiro de 2025, o macho foi encontrado com lesões perfurantes na região escapular esquerda, compatíveis com ferimentos causados por garras de outro tamanduá-bandeira, conforme descrito em literatura clínica (3). Posteriormente, em 26 de junho de 2025, a fêmea apresentou lesão semelhante, com perfuração única no dorso. Para avaliação e tratamento, ambos foram anestesiados com uma combinação intramuscular de butorfanol (0,1 mg/kg), detomidina (0,1 mg/kg) e midazolam (0,2 mg/kg) (4). As feridas foram higienizadas com soro fisiológico e tratadas com pomada cicatrizante e antisséptico tópico em spray. Foi administrada penicilina (30.000 UI/kg, via intramuscular). O acompanhamento clínico foi realizado quinzenalmente por cerca de um mês para cada indivíduo, com contenção física por puçá, totalizando três capturas por animal. As lesões apresentaram boa evolução até a cicatrização completa (Figura 1). Amostras de sangue total e soro foram coletadas para hemograma e avaliação bioquímica, sem alterações sugestivas de infecção sistêmica (4). A ocorrência de agressão entre indivíduos da mesma espécie em ambiente natural é rara na literatura, o que confere relevância ao presente registro para o entendimento do comportamento da espécie. O contexto reforça a importância da adoção de protocolos de manejo ex situ, como a já estabelecida separação de machos e fêmeas prenhes de Xenarthra sob cuidados humanos (5). As lesões observadas, distintas daquelas causadas por predadores ou cães domésticos, sustentam a hipótese de agressão intraespecífica. Este relato contribui para o aprimoramento de estratégias de conservação ex situ, oferecendo dados relevantes sobre comportamento, hábitos e ecologia da espécie, além de embasar ações de conservação in situ mais eficazes. A partir desses registros, destaca-se a importância de estudos contínuos sobre interações comportamentais em vida livre, visando ampliar a compreensão ecológica da espécie e fortalecer iniciativas integradas de preservação em longo prazo.

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Publicado

2026-03-17