TRATAMENTO DE FERIDA EM ÍBIS-SAGRADO-AFRICANO (Threskiornis aethiopicus) COM USO DE PELE DE TILÁPIA

Autores

  • Nathalia Aline Luz Rodrigues
  • Ana Clara Fernandes Gomes
  • Ana Carolina Monteiro Miranda Grolla
  • Caio Eduardo Tardivo Okamoto
  • Mariana Castilho Martins
  • André Luiz Mota Costa
  • Rodrigo Hidalgo Friciello Teixeira

Palavras-chave:

aves, biomaterial, cicatrização

Resumo

O íbis-sagrado-africano (Threskiornis aethiopicus), pertencente à família Threskiornithidae é comumente mantido sob cuidados humanos em diversas instituições. Nestes ambientes, traumas representam uma importante causa de morbidade e mortalidade, frequentemente associados à interação com elementos do recinto, conflitos intraespecíficos ou interespecíficos, dentre outros fatores (1). Tais injúrias, por vezes, requerem intervenções terapêuticas prolongadas e, em espécies selvagens, o tratamento torna-se desafiador devido a fatores comportamentais, anatômicos e susceptibilidade a alterações fisiológicas induzidas por estresse, os quais podem comprometer o processo cicatricial. Entre os avanços terapêuticos, a pele de tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus) tem se destacado como alternativa promissora na medicina humana e veterinária, para o tratamento de lesões cutâneas de diferentes etiologias. Registrada pela Anvisa, suas propriedades estruturais e biológicas, como resistência à tração, alta concentração de colágeno tipo I, elevado teor de umidade e morfologia compatível com a pele, favorecem sua adesão ao leito da ferida, proliferação celular e regeneração tecidual (2). O presente trabalho tem como objetivo relatar a sua aplicação como curativo biológico oclusivo temporário no manejo de ferida cutânea em um exemplar de Threskiornis aethiopicus mantido sob cuidados humanos. Um macho, adulto, foi atendido com uma ferida aberta contaminada, de origem traumática, situada na face medial e lateral de rádio e ulna direitos, envolvendo as regiões proximal e média, com ampla área de desnudamento cutâneo, exposição de musculatura e presença de tecido desvitalizado nas bordas e no leito da lesão (Figura 1). Procedeu-se à contenção farmacológica, limpeza, desbridamento do leito e reavivamento das bordas da ferida, observando-se inviabilidade de aproximação tecidual em virtude da ausência de epitélio. O protocolo terapêutico inicial consistiu na administração de cloridrato de tramadol (4 mg/kg/IM, BID) por 3 dias, dipirona (25 mg/kg/IM, BID) e meloxicam (0,5 mg/kg/IM, SID) ambos por 5 dias, enrofloxacina (20 mg/kg/IM, BID) por 7 dias e curativo de alginato de cálcio e sódio, BID. Após cinco semanas sem evolução satisfatória (figura 1) e diante do agravamento do estresse pela manipulação frequente, optou-se pela adoção da pele de tilápia como alternativa terapêutica. As peles de tilápia foram processadas segundo metodologia proposta por Lima Júnior (3) e Santos e Alencar (4), aplicadas diretamente sobre o leito da ferida e recobertas com bandagem elástica adesiva e esparadrapo. O curativo foi substituído a cada cinco dias, por quatro semanas (figura 2). No período de quatro semanas, observou-se evolução cicatricial satisfatória, com formação consistente de tecido de granulação e cobertura epitelial parcial (figura 2). A pele de tilápia demonstrou excelente integração ao leito da ferida, auxiliando no controle do exsudato, na neoformação tecidual e epitelização (2,3). Além das propriedades estruturais, seu perfil bioativo antioxidante, antibacteriano, neuroprotetor, analgésico e anti-hipertensivo reforça seu potencial terapêutico (5). Embora amplamente estudada em humanos (3) e animais (4), inclusive em espécies selvagens (5), ainda são escassos os relatos científicos em aves. Este relato amplia o conhecimento sobre o uso desse biomaterial em espécies aviárias, evidenciando eficácia em Threskiornis aethiopicus e destacando-a como alternativa viável, funcional e economicamente acessível no manejo de feridas extensas.

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Publicado

2026-03-18