TRATAMENTO DE UVEÍTE SECUNDÁRIA A TRAUMA COM ASSOCIAÇÃO DE BROMETO DE ROCURÔNIO EM CARIAMA CRISTATA
Palavras-chave:
midríase farmacológica, oftalmologia veterinária, seriemaResumo
"A seriema (Cariama cristata) possui olhos lateralizados, compostos por 12 a 14 ossículos esclerais (1). A acuidade visual tem grande importância para animais de vida livre, por isso, o conhecimento acerca das afecções oftálmicas e seus tratamentos é relevante para medicina de aves. A uveíte é um quadro inflamatório que afeta estruturas como íris, corpo ciliar e coróide, podendo acarretar danos permanentes à visão dos pacientes acometidos (2). O presente trabalho tem como objetivo relatar o tratamento de uveíte secundária a trauma em um exemplar de seriema. A ave adulta, de vida livre e sem sexo definido, foi resgatada e encaminhada para atendimento médico veterinário com uma fratura epifisária exposta em membro pélvico direito. Durante o exame de triagem, notou-se vermelhidão na córnea do olho esquerdo (OE), com discreta enoftalmia, hiperemia de conjuntiva palpebral, hifema e coloração anormal da íris (amarela/esverdeada) (Figura 1). No olho direito (OD), não havia alterações dignas de nota. Com tonometria de rebote, aferiu-se pressão intraocular (PIO) de 14 mmHg em OD e de 0 mmHg em OE. Diante do quadro, foi solicitada ultrassonografia, que sugeriu hemorragia na câmara vítrea, descolamento de retina e ruptura da lente em OE. Tendo em vista as alterações descritas, o quadro foi diagnosticado como uveíte facogênica secundária a trauma. Para controle da inflamação, foi prescrito prednisolona (OE, 1 gota, BID, por 10 dias). O animal passou por novo exame 10 dias depois, com melhora discreta (PIO OD 13 mmHg, OE 3 mmHg), mas com coloração da íris ainda alterada. Após uma semana, foi visto que a coloração da íris se manteve alterada, mas que a PIO de OE (14 mmHg) se assemelhava à de OD (18 mmHg). Observou-se sinéquia posterior ao longo da borda da pupila e, mediante os sinais clínicos, aumentou-se a frequência da prednisolona (QID) e acrescentou-se brometo de rocurônio (OE, 0,04 mL, tópico, BID, por 7 dias) para induzir a dilatação da pupila, em busca da reversão da sinéquia. Uma semana após, observou-se coloração de íris normal (Figura 2) e presença de reflexo pupilar no OE. Após uma semana da suspensão, o olho manteve-se estável (PIO: OD 20 mmHg, OE 14 mmHg), com alta clínica do animal. O uso de agente midriático para resolução de sinéquias é comum (3), mas a presença de musculatura estriada na íris de aves impede o uso de fármacos usualmente utilizados em mamíferos. O brometo de rocurônio foi descrito previamente como agente midriático em diferentes espécies de aves (4, 5), o que embasou sua utilização na seriema. Apesar de não haver dados publicados para C. cristata, demonstrou-se a eficácia do rocurônio associado à prednisolona para tratamento de uveíte e sinéquia. Esse achado contribui significativamente para o melhor desenvolvimento de protocolos em afecções oculares da espécie descrita e colaborar com futuros estudos e avanços na área.
"
