RESISTÊNCIA ANTIMICROBIANA EM Trichechus manatus manatus COM SEPTICEMIA: RELATO DE CASO

Autores

  • Pedro Joaquim Leite da Costa e Sousa
  • Arthur Vinicius Caetano de Oliveira
  • Héctor Guilherme Silva Freitas
  • Nicolas Nogueira dos Santos
  • Radan Elvis Matias de Oliveira
  • Fábia de Oliveira Luna
  • Fernanda Loffler Niemeyer Attademo

Palavras-chave:

Antibióticos, microbiologia, reabilitação

Resumo

Os peixes-bois-marinhos são mantidos em cativeiro no Brasil visando principalmente a soltura destes indivíduos com o intuito de conservação. A adequação dos protocolos terapêuticos para evitar a resistência antimicrobiana (RAM) é um grande desafio para a medicina da espécie, evitando complicações nas populações nativas após a soltura. Um peixe-boi-marinho (Trichechus manatus manatus) macho, adulto, mantido em cativeiro no Brasil inúmeros abscessos cutâneos, perda de peso progressiva e inapetência, resultando em septicemia. O espécime foi acompanhado por meio de exames hematológicos, culturas antimicrobianas e fúngicas. Foram fornecidos antibióticos dos grupos aminoglicosídeos, fluoroquinolonas, penicilinas e sulfonamidas durante o período de tratamento, porém o quadro do peixe-boi não foi responsivo, tendo resultado no óbito 30 meses após o início do tratamento. Nos exames de antibiograma realizados ante mortem, as bactérias mais encontradas nos abscessos encontrados foram Proteus mirabilis, Pseudomonas luteola, e Staphylococcus aureus, sendo verificada multirresistência respectivamente à cinco, três e três diferentes antibióticos testados. O antibiótico com maior resistência foi Amoxicilina + Clavulanato de Potássio que foi resistente à todas as bactérias. Durante o período de tratamento foram realizadas limpezas constantes das lesões, na tentativa de drenagem das secreções, porém todas apresentaram recidiva. Na necropsia, apresentava pionefrose grave, presença de secreção em todo o tecido subcutâneo e nos órgãos, além de intraóssea. A origem dos abscessos não foi identificada, porém é possível que pelo desenvolvimento do quadro e ausência de respostas, tenha ocorrido internamente. A RAM é uma das principais ameaças à saúde pública e veterinária global. O uso inadequado ou prolongado de antimicrobianos, como aminoglicosídeos, fluoroquinolonas, penicilinas e sulfonamidas, contribui para a seleção de microrganismos resistentes (1). Altas taxas de resistência foram identificadas em patógenos como Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae, incluindo resistência às fluoroquinolonas e β-lactâmicos, amplamente utilizados na medicina veterinária (2). Esse cenário compromete a eficácia terapêutica frente a infecções bacterianas comuns. O uso profilático de antibióticos sem diagnóstico microbiológico aumenta a pressão seletiva sobre a microbiota animal, favorecendo a disseminação de genes de resistência (1). Diversas espécies da fauna silvestre, incluindo aves migratórias e mamíferos marinhos, atuam como reservatórios de bactérias multirresistentes. Foram identificadas resistências a aminoglicosídeos, sulfonamidas, fluoroquinolonas e β-lactâmicos, mesmo na ausência de exposição direta a antimicrobianos (3). Em mamíferos marinhos como Tursiops truncatus, foi observada taxa de resistência de até 88% dos isolados bacterianos, abrangendo aminoglicosídeos, penicilinas e fluoroquinolonas (4). O uso empírico de antibióticos sem testes de sensibilidade compromete o tratamento e favorece a disseminação de cepas resistentes. No presente caso clínico, foi necessária a utilização sucessiva de antibióticos de diferentes classes para controle da infecção, evidenciando a limitação terapêutica causada pela RAM. O uso de antibióticos deve ser bem avaliado em espécimes que retornarão ao ambiente natural, evitando levar bactérias multirresistentes às populações nativas. Com isso, destaca-se a importância de identificação de métodos de diagnósticos mais eficazes para determinar a causa das infecções bacterianas prematuramente em peixes-bois, a fim de agir diretamente no agente infeccioso, com redução de riscos de resistências antimicrobianas.

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Publicado

2026-03-18