TRAUMAS POR PROJÉTIL EM ATOBÁ-MARROM (Sula leucogaster): ESTUDO RETROSPECTIVO DE NECROPSIAS
Palavras-chave:
Agressão, Chumbinho, SulídeosResumo
O atobá-marrom (Sula leucogaster, Boddaert, 1783) é uma espécie que habita todos os oceanos tropicais (1) e é o mais comum e abundante representante dos sulídeos na costa brasileira. Seu estado de conservação é considerado pouco preocupante (2,3), porém com tendência global de declínio, o que destaca a importância de compreender as ameaças nas áreas de nidificação e alimentação para orientar manejos específicos. Este trabalho tem como objetivo compilar e descrever casos de trauma por projétil em atobás-marrom no sul do Brasil, consolidando informações que permitam identificar padrões epidemiológicos e subsidiar estratégias de gestão e conservação. Os dados utilizados neste estudo foram provenientes do Sistema de Informação de Monitoramento da Biota Aquática (SIMBA), uma base pública de informações. Esta plataforma contém informações relacionadas ao Projeto de Monitoramento de Praias (PMP), desenvolvido como parte das condicionantes do licenciamento ambiental federal, sob a supervisão do IBAMA. O trecho de monitoramento compreende a cidade de Laguna (SC) a Pontal do Paraná (PR), e é conduzido para registrar e avaliar a ocorrência de fauna marinha, especialmente eventos de encalhe e mortalidade. Para coleta de dados referentes aos indivíduos afetados por projétil, na seção PMP-BS Área SC/PR, na aba “Exames anatomopatológicos”, foram aplicados os filtros “Sula leucogaster” na categoria taxonomia, e “01/12/2023” e “31/01/2024” como data inicial e final de necropsia, respectivamente. Posteriormente, foram analisados os relatórios dos 17 espécimes submetidos ao procedimento de necropsia com finalidade de identificar indivíduos classificados com a interação antrópica do tipo “caça, vandalismo ou agressão”. Das 17 aves analisadas, 8 (47,05%) foram classificadas como afetadas por interação antrópica do tipo “caça, vandalismo ou agressão”, sendo que 7 (41,17%) apresentavam lesões atribuídas a armas de pressão (Figuras 1 e 2). As 8 aves foram resgatadas com vida por meio do monitoramento de praia, contudo, 6 foram submetidas à eutanásia devido à gravidade das condições apresentadas, enquanto as outras 2 vieram a óbito no dia seguinte. A alta ocorrência de indivíduos afetados por traumas provocados por armas de pressão observada neste estudo evidencia um problema significativo de origem antrópica que pode impactar diretamente a sobrevivência e o bem-estar das populações no sul do Brasil, tendo em vista que lesões por projéteis de chumbinho são amplamente reconhecidas como potencialmente letais, devido a danos extensos em tecidos moles, ossos e órgãos vitais. Embora a caça de aves marinhas seja proibida no Brasil (Lei nº 9.605/1998), relatos de perseguição e violência contra aves costeiras e oceânicas ainda são recorrentes em diferentes regiões, muitas vezes relacionados à percepção equivocada de competição por recursos pesqueiros ou ao simples vandalismo. Os resultados evidenciam que a interação antrópica por meio de agressões com armas de pressão resulta em alta taxa de mortalidade e baixa possibilidade de reabilitação dos indivíduos atingidos. A gravidade das lesões observadas reforça a necessidade de direcionar e fortalecer ações de fiscalização nas localidades estudadas, ampliar programas de educação ambiental e promover maior sensibilização das comunidades costeiras sobre a importância ecológica desta espécie.
