EXTRATO DE CANNABIS FULL SPECTRUM NO CONTROLE DE DOR CRÔNICA EM TAMANDUÁ-BANDEIRA (Myrmecophaga tridactyla)
Palavras-chave:
Cannabidiol, Discopatia degenerativa, THCResumo
O sistema endocanabinoide (SEC), presente em todos os vertebrados, possui papel fundamental na manutenção da homeostase do organismo (1). Seu envolvimento em processos fisiopatológicos da dor permite o uso de fitocanabinoides, como o cannabidiol (CBD) e delta-9-tetrahidrocannabinol (THC), na abordagem terapêutica em quadros de dor (2). Animais senis mantidos sob cuidados profissionais podem ser mais vulneráveis a experiências negativas de bem-estar, como dores físicas, limitações motoras e cognitivas (3). Neste trabalho, relata-se o manejo de dor crônica com o uso do extrato de cannabis full spectrum em um indivíduo da espécie Myrmecophaga tridactyla, macho, 37kg, 15 anos, mantido sob cuidados profissionais desde filhote, após perder sua mãe vítima de atropelamento. O paciente apresenta histórico de parestesia de membros pélvicos, infecção e anemia crônica, identificado há cerca de 5 anos. Em radiografia, foi constatado processo degenerativo com formação de espondiloses deformantes nos segmentos torácico, lombossacro e caudal da coluna, redução do espaço intervertebral entre L3-S1 com diferencial de discopatia lombossacra/síndrome da cauda equina (figura 1). Desde então, o paciente foi submetido ao uso contínuo de gabapentina (10mg/kg/VO/BID) para manejo de dor crônica, e dexametasona (0,1mg/kg/IM) em quadros de crise de dor, identificado por meio de claudicação, automutilação em região de focinho e menor consumo de alimento. Em agosto de 2024, foi iniciada a terapia canabinoide em busca de maior controle do quadro, atualmente na dose de 0,05mg/kg/VO/SID de CBD e 0,02mg/kg/VO/SID de THC, ofertado junto à alimentação peletizada, no final da tarde. O aumento da dose ocorreu de maneira gradual, a cada 10 dias, com observação da resposta comportamental por meio de monitoramento 24h por câmeras e avaliação das imagens pela equipe técnica. Iniciou-se com o uso de extrato rico em CBD e posteriormente incluiu-se o extrato rico em THC, a fim de garantir maior controle da dor, com dose mínima efetiva e sem efeitos adversos. Com a dose estabelecida, foi observado aumento do nível de atividade e de interação com o recinto e atividades de enriquecimento ambiental, melhora no apetite e na marcha. Também foi possível realizar o desmame da gabapentina, sem registros de crises de dor desde então. Os endocanabinoides desempenham múltiplos papéis nos mecanismos da dor, sendo liberados em resposta à lesão tecidual, inflamação ou sinalização nociceptiva exacerbada, com a função de modular a sensibilização, atenuar a dor e inibir a cascata inflamatória (2,4). O uso de fitocanabinoides no manejo da dor crônica tem mostrado eficácia em humanos, animais de laboratório e de companhia, sendo uma opção promissora na medicina veterinária, desde que haja criteriosa seleção do produto, quanto à qualidade e composição (2). O uso de extrato de cannabis em animais selvagens deve ser realizado de forma cuidadosa e bem monitorada, considerando o comportamento e metabolismo de cada espécie. Além disso, é importante ter conhecimento sobre a ação dos fitocanabinoides, possíveis interações medicamentosas e efeitos adversos, com o objetivo de garantir um tratamento seguro e eficaz para o paciente.
