Infecção por nematóides acuariídeos na cavidade oral de corujinha-do-mato (Megascops choliba): relato de caso e considerações sobre ecologia alimentar e habitat em casos de parasitose
Palavras-chave:
Avifauna selvagem, Cadeia trófica, Parasitose oralResumo
Os nematóides constituem o segundo maior grupo taxonômico de parasitos encontrados em aves. Helmintos parasitos podem causar doenças significativas em seus hospedeiros, e muitos são transmitidos troficamente, de modo que a dieta e o habitat do hospedeiro desempenham um papel fundamental na aquisição de infecções (1). Dadas as mudanças simultâneas nos habitats das aves e no comportamento migratório, é fundamental compreender o grau em que a ecologia do hospedeiro influencia suas comunidades parasitárias. Diante disso, o presente trabalho é um relato de caso de um atendimento realizado no Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (CETRAS-UFRA) em setembro de 2024. Um filhote de corujinha-do-mato (Megascops choliba) passou por avaliação veterinária sem que fossem constatados sinais de enfermidade ou lesão corporal. Entretanto, ainda assim foi internado por se tratar de um animal jovem que precisava desenvolver plenamente sua capacidade de voo antes de ser considerado apto para reabilitação e soltura. Após um mês de internação, durante a avaliação e pesagem semanal, foram observados vermes filiformes esbranquiçados aderidos à cavidade oral (Figura 1), próximos a região de orofaringe, os quais foram retirados com auxílio de uma pinça e armazenados em solução de álcool 70% para posterior identificação (Figura 2). Apesar da ausência de sinais clínicos compatíveis com a parasitose, como uma medida de profilaxia foi administrado fenbendazol (25mg/kg/VO), um antiparasitário eficaz no tratamento de nematódeos gastrintestinais, garantindo o controle da infecção. O tratamento foi bem tolerado e, nas avaliações subsequentes, não foram observados novos helmintos na cavidade oral. Na análise filogenética inicial, baseada no gene COI, os helmintos (9 fêmeas e 3 machos) foram identificados como pertencentes à família Acuariidae, a qual compreende mais de 300 espécies de nematóides que são normalmente encontrados no trato digestivo de aves aquáticas com registros no mundo todo, contudo, algumas espécies desses parasitos foram descritos em infecções de aves terrestres, como Falconiformes, Galliformes e Passeriformes (2). Os membros deste grupo apresentam um ciclo de vida complexo, nas espécies aquáticas, as aves funcionam como hospedeiros definitivos, enquanto diferentes artrópodes e peixes atuam como hospedeiros intermediários e paratênicos, respectivamente (3). As larvas dos acuariídeos foram encontradas em diversos grupos de hospedeiros artrópodes, sobretudo com hábito aquático, contudo, para a maioria das espécies da família Acuariidae, a identidade dos hospedeiros intermediários e paratênicos ainda é desconhecida. Nas aves, esses parasitos se localizam principalmente no proventrículo, e, em casos mais raros, o esôfago e o intestino. A alimentação da corujinha-do-mato é caracterizada por uma dieta generalista que inclui, predominantemente, insetos, outros artrópodes e pequenos vertebrados como roedores, lagartos e anfíbios, tornando essa espécie vulnerável à aquisição de nematóides transmitidos troficamente. Além disso, essa espécie é cosmopolita se adaptando a diversos ambientes, o que aumenta ainda mais sua exposição a parasitos. Apesar da infecção, o exemplar de corujinha-do-mato foi reabilitado e destinado à soltura na natureza, sendo esse caso importante, pois ressalta a complexa interdependência entre a ecologia alimentar, o uso do habitat e a dinâmica das infecções parasitárias em aves silvestres.
