INFLUENZA AVIÁRIA H5N1 EM TRINTA-REIS-BOREAL (Sterna hirundo): PRIMEIROS REGISTROS NO LITORAL NORTE FLUMINENSE

Autores

  • Gabriela Gomes Siqueira
  • Lais Modolo Conti
  • Débora Cristina Alves
  • Ana Clara Rigoni Gonçalves Ventura
  • Daniela Bueno Mariani

Palavras-chave:

Gripe aviária, medicina da conservação, saúde única

Resumo

A Influenza Aviária é uma doença sistêmica e potencialmente letal para aves, tendo como reservatórios naturais as aves aquáticas silvestres. Trata-se de uma zoonose de grande relevância para a saúde pública e a sanidade animal, por seu alto potencial de transmissão e impacto econômico na avicultura. É uma doença de notificação obrigatória e está diretamente relacionada ao conceito de Saúde Única (1). A infecção é classificada quanto à patogenicidade em dois tipos: Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP) e de Baixa Patogenicidade (IABP). Até então, os casos confirmados de IAAP no Brasil ocorreram majoritariamente em aves silvestres migratórias marinhas (2); somente em maio de 2025 houve confirmação do primeiro foco em granja comercial de aves domésticas (3). O primeiro registro oficial foi no Espírito Santo, com confirmação laboratorial em dois Thalasseus acuflavidus e um Sula leucogaster. Em 22/02/2024, a equipe do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Campos (PMP/BC-ES) resgatou um Sterna hirundo com sinais neurológicos leves (fraqueza, incoordenação, paresia) em São João da Barra – RJ. No dia seguinte, o quadro evoluiu para meneios cefálicos. Seguindo o protocolo estabelecido pelo Serviço Veterinário Oficial (SVO), o animal foi submetido à eutanásia. Em 23/02/2024, outro indivíduo da mesma espécie encalhou no município de São Francisco de Itabapoana – RJ com sintomas neurológicos semelhantes, vindo a óbito logo após a admissão. Ambos os casos foram imediatamente notificados ao Núcleo de Defesa Agropecuária, que, em conjunto com a equipe veterinária do PMP, realizou necropsia e coleta de amostras dos sistemas nervoso, respiratório e digestivo. As amostras foram encaminhadas ao Laboratório Federal de Defesa Agropecuária (LFDA) para análise por RT-qPCR, com resultado positivo para Influenza Aviária H5N1 nos dois animais. A partir desses registros, a região do litoral norte fluminense foi considerada área de foco. Nos 30 dias subsequentes, foram resgatados 12 novos S. hirundo na região. Os indivíduos que já apresentavam sintomas neurológicos no momento do resgate foram eutanasiados conforme o protocolo sanitário (4). Já os animais inicialmente assintomáticos foram mantidos em quarentena, mas desenvolveram sinais neurológicos entre 1 e 2 dias após a admissão, sendo também submetidos à eutanásia. A atuação do PMP/BC-ES envolveu a articulação entre vigilância sanitária, conservação da biodiversidade e educação comunitária, demonstrando a importância da abordagem intersetorial em episódios de doenças infecciosas emergentes. Sob a ótica da medicina da conservação, o médico veterinário de fauna marinha exerce papel fundamental na mitigação de impactos, articulando saúde animal, humana e ambiental (5). Este relato reforça a relevância dos projetos de monitoramento de praias como instrumentos de vigilância ativa em aves costeiras, que são importantes reservatórios naturais da Influenza Aviária. O reconhecimento precoce de sinais clínicos, o fluxo de notificação e a resposta técnica articulada foram essenciais para o controle do foco e para a prevenção de riscos à saúde coletiva.

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Publicado

2026-03-20