INFECÇÃO POR Macrorhabdus ornithogaster EM SERPENTE DO GÊNERO Pantherophis guttatus: RELATO DE CASO
Palavras-chave:
Pets não convencionais, ,Répteis, ,transmissão interespéciesResumo
Infecções por Macrorhabdus ornithogaster (anteriormente “megabactéria”) são comuns em aves exóticas, especialmente calopsitas (Nymphicus hollandicus) e periquitos (Melopsittacus undulatus), afetando entre 34% e 55% dos indivíduos testados, embora muitos sejam assintomáticos (1). Em aves, M. ornithogaster torna-se clinicamente relevante em situações de imunossupressão, como períodos reprodutivos, estresse ou falhas no manejo térmico (2). Apesar da ausência de relatos prévios do fungo em serpentes, o caso descrito se assemelha a infecções oportunistas em répteis, como a ofidiomicose, causada por Ophidiomyces ophiodiicola, que ocorre em condições de brumação ou baixa imunidade (3). Neste contexto, este trabalho relata um caso clínico de infecção fúngica em uma serpente Pantherophis guttatus, possivelmente decorrente de contaminação cruzada com aves mantidas no mesmo ambiente domiciliar. Uma Corn Snake (Pantherophis guttatus), macho, 6 anos, 0,895 kg, foi atendida apresentando anorexia há 30 dias, alterações fecais (uratos excessivos), escore corporal levemente baixo e agitação em terrário sem aquecimento adequado. Exames coproparasitológicos e coloração de Gram revelaram estruturas compatíveis com M. ornithogaster, confirmadas por PCR. Duas aves da mesma residência (calopsita e periquito australiano) haviam sido diagnosticadas anteriormente com a mesma infecção, sugerindo contaminação cruzada. Hemograma revelou linfopenia e heterofilia; bioquímica hepática normal, renal não avaliada. Foi iniciado tratamento com nistatina (100.000 UI/kg, VO, BID), sucralfato (2,5 ml, VO, BID), enrofloxacino (10 mg/kg, IM, SID), cetoprofeno (2 mg/kg, IM, D.A.) e suporte nutricional via sonda com dieta hipercalórica. Houve redução acentuada da carga fúngica (de incontáveis estruturas para 5–6/campo) e melhora clínica significativa. Exame coproparasitológico de controle foi negativo. A presença de M. ornithogaster em aves é bem documentada, com elevada prevalência em calopsitas e periquitos mantidos como pets (4). Já a infecção em répteis é extremamente rara. A coexistência de aves infectadas no mesmo ambiente, ainda que em cômodos separados, sugere contaminação horizontal, provavelmente por fômites ou partículas suspensas no ar. Em aves, os sinais clínicos ocorrem geralmente em situações de imunossupressão. Fatores como período reprodutivo, estresse e falhas térmicas favorecem infecções oportunistas (2). Relatos de outras infecções fúngicas em serpentes, como a ofidiomicose, também associam brumação e estresse térmico como fatores agravantes (3). Esses paralelos reforçam a importância de condições ambientais adequadas para evitar queda imunológica e proliferação de patógenos oportunistas. A infecção por M. ornithogaster em P. guttatus provavelmente resultou de contaminação cruzada com aves infectadas na mesma residência. Inicialmente considerada autolimitada, a infecção exigiu tratamento devido à sintomatologia clínica associada ao período reprodutivo, momento de imunossupressão natural. A resposta terapêutica foi positiva, com melhora clínica e ausência de estruturas fúngicas nos exames subsequentes. Este caso alerta para os riscos da convivência entre espécies distintas em ambiente doméstico e ressalta a importância do manejo ambiental e de medidas de biossegurança.
