AVALIAÇÃO COPROPARASITOLÓGICA DE ALOUATTA GUARIBA DURANTE O PROCESSO DE REFORÇO POPULACIONAL NA SERRA DA CANTAREIRA/SP.
Palavras-chave:
bugio-ruivo, medicina da conservação, parasitológico, reintrodução, uma só saúdeResumo
O bugio-ruivo (Alouatta guariba), primata endêmico da Mata Atlântica, sofreu uma drástica redução populacional durante o surto de febre amarela entre 2017 e 2019, com perda de milhares de indivíduos, especialmente no Parque Estadual da Cantareira (PEC), São Paulo/SP (1). Animais resgatados e mantidos no Centro de Manejo e Reabilitação de Animais Silvestres (CEMACAS) da Prefeitura de São Paulo foram reabilitados visando à reintrodução no PEC (2). Embora as endoparasitoses sejam comuns em bugios, podendo ou não causar sintomatologias (3), informações sobre a dinâmica do perfil de parasitas gastrointestinais durante o processo de readaptação ao ambiente silvestre após longo período ex situ, e seu impacto na conservação da espécie ainda são escassas. Diante disso, este estudo visou avaliar possíveis alterações no perfil de parasitas gastrointestinais durante a reintrodução in situ. Para isso, foram analisadas 12 amostras fecais de cinco indivíduos (dois machos e três fêmeas) de A. guariba, coletadas após a excreção espontânea no recinto de aclimatação e após a soltura no ambiente silvestre. As amostras foram acondicionadas em potes coletores, mantidas sob refrigeração e processadas no Laboratório de Doenças Parasitárias da FMVZ-USP, utilizando os métodos de Willis-Mollay modificado, centrífugo-flutuação simples em solução de sacarose e centrífugo-sedimentação em água-éter. Os animais foram transferidos do ambiente ex situ para o recinto de aclimatação, localizado em área de floresta no PEC, onde permaneceram por 15 dias sendo alimentados com folhas coletadas da própria mata. Nesse período, das seis amostras fecais obtidas, todas apresentaram cistos de Giardia spp. (figura 1) e cinco continham ovos de Oxyuroidea (figura 2). No 2º, 3ºe 5º mês após a soltura, todas as amostras coletadas apresentaram ovos de Oxyuroidea, mas não foram detectados protozoários nesse período. Os achados indicam que a infecção por Giardia spp. e por nematódeos da família Oxyuroidea já existia no ambiente ex situ. Após a soltura, a infecção por oxiurídeos persistiu, possivelmente, devido ao seu ciclo direto monoxeno (4), mas sem indicação de aumento na intensidade parasitária, uma vez que o número de ovos por amostra não variou. Esses achados corroboram a literatura, que aponta Trypanoxyuris sp. como parasita mais prevalente em bugios (4). Já a ausência de achados de Giardia spp. pós-soltura sugere infecção nosocomial, havendo remissão em condições naturais. A partir disso, conclui-se que bugios-ruivos sob cuidados humanos possuem parasitismo por Giardia spp. e oxiurídeos e durante o processo de reintrodução, a Giardia spp. é debelada pelos indivíduos e não há infecções por outras espécies de parasitas gastrointestinais. A ausência de intensificação do parasitismo por oxiurídeos pode refletir o sucesso na ambientação in situ. O exame coproparasitológico mostra-se útil como um método indireto de avaliar e monitorar a saúde em primatas reintroduzidos, devido à facilidade da coleta de fezes diretamente do solo no momento da defecação. Em ambiente ex situ, estratégias sanitárias devem ser tomadas para prevenir a contaminação ambiental por Giardia spp., especialmente considerando seu potencial zoonótico e relevância para a saúde única.
