TRATAMENTO DE PODODERMATITE EM Parabuteo unicinctus COM PHMB FRENTE À INFECÇÃO POR BACTÉRIA MULTIRRESISTENTE
Palavras-chave:
cicatrização, rapinantes, lesões plantaresResumo
A pododermatite é uma enfermidade comum em aves de rapina mantidas sob cuidados humanos, afetando a região plantar e, por vezes, os dedos (1). Sua progressão envolve necrose do epitélio plantar, seguida por invasão bacteriana e inflamação profunda (2). O tratamento geralmente combina debridamento cirúrgico, antissépticos tópicos e antibióticos sistêmicos (3). Este relato descreve o tratamento de pododermatite em um gavião-asa-de-telha (Parabuteo unicinctus), utilizando polihexametileno biguanida (PHMB) diante da presença de uma bactéria multirresistente. O animal, sob cuidados humanos, desenvolveu a afecção devido a erro de manejo. Na avaliação clínica, foram identificadas lesões profundas em ambos os pés. Inicialmente, foi realizado o debridamento cirúrgico, seguido de tratamento tópico com Clorexidina 2% diluída (1:10) em solução fisiológica, aplicação de Sulfadiazina de prata e bandagem acolchoada. Foram administrados por via intramuscular Enrofloxacina (10 mg/kg BID por 20 dias), Meloxicam (0,5 mg/kg SID por 5 dias) e Cloridrato de tramadol (7 mg/kg BID por 10 dias). Após 15 dias, sem melhora significativa, foi realizada cultura e antibiograma. O exame revelou isolamento de Klebsiella pneumoniae, sensível apenas ao Imipenem (Tabela 1), não disponível no local. Como alternativa, optou-se apenas por tratamento tópico com PHMB 0,1% (solução) e gaze comercial impregnada com PHMB. A aplicação foi diária nos primeiros cinco dias, passando para intervalos de 48 horas por 25 dias e, posteriormente, intervalos de 72 horas. O protocolo consistiu em limpeza com PHMB solução, deixando agir por 5 minutos, seguida de gaze comercial impregnada com PHMB, camadas secas de gaze e bandagem acolchoada. A ferida começou a apresentar retração no início do segundo mês e a cicatrização completa ocorreu após três meses (Figura 1). Nos últimos anos, o PHMB tem se destacado como uma abordagem terapêutica no tratamento de feridas em mamíferos, devido às suas propriedades antimicrobianas e ao estímulo à cicatrização (4). O composto apresenta amplo espectro de ação, atuando contra bactérias Gram-negativas e Gram-positivas, fungos, vírus e protozoários. Além disso, não há evidências de que induza resistência bacteriana, e é considerado seguro para tecidos em regeneração (4). Apesar da falha do tratamento inicial e da presença de uma bactéria multirresistente, o uso tópico de PHMB demonstrou eficácia antimicrobiana, controlando a infecção e promovendo a cicatrização da lesão. Mesmo com a duração de três meses, a retração observada no meio do tratamento indicou o sucesso do protocolo, uma vez que a contração da ferida é um indicativo do potencial de cicatrização (5). Fatores como localização anatômica, flexibilidade do tecido adjacente, presença de infecção, extensão da lesão e necrose podem influenciar o tempo de cicatrização (5). No caso em questão, a topografia da lesão e o processo infeccioso provavelmente dificultaram a regeneração tecidual. Ainda assim, o PHMB proporcionou ação prolongada, permitindo espaçamento entre os curativos e reduzindo a frequência de contenções, fator relevante, considerando o estresse gerado em animais silvestres durante esses procedimentos. O PHMB mostrou-se eficaz na recuperação do animal, mesmo frente a uma infecção por bactéria multirresistente, destacando-se como alternativa viável para feridas infectadas e contribuindo para a redução do uso de antibióticos.
