ALTERAÇÕES MACROSCÓPICAS DE SAGUIS (Callithrix spp.) DECORRENTES DE ACIDENTES COM REDE ELÉTRICA, 2003-2024

Autores

  • Giulia de Castro Bellinati
  • Sandy Lorena Pulecio-Santos
  • Isabella Martin Lourenço
  • Barbara Viana Ortega
  • Marina Dutra Basile
  • Ticiana Martins Zwarg Simões Dias
  • Lilian Rose Marques de Sá

Palavras-chave:

Conservação, Eletrocussão, Primatas Neotropicais

Resumo

Introdução: Acidentes com rede elétrica são descritos como um dos fatores de maior impacto negativo para primatas neotropicais (PNT) em regiões urbanas e periurbanas no Brasil. Os hábitos arborícolas de espécies como os saguis aumentam a predisposição e o risco de ter contato com fios elétricos, cujas consequências podem ser fatais ou resultar em queimaduras que comprometem a sobrevida e conservação desses indivíduos. Reconhecer e caracterizar as lesões externas por acidentes com rede elétrica podem constituir uma ferramenta essencial para o desenvolvimento de medidas e políticas ambientais voltadas à conservação dos PNT (1). Materiais e Métodos: Foram analisados 304 relatórios de necrópsia de Callithrix jacchus, Callithrix penicillata e híbridos dessas duas espécies, vindos a óbito de 2003 a 2024 na região metropolitana de São Paulo e Cotia. O critério de inclusão foi condição de morte associada a acidente com rede elétrica. Foi determinado o perfil demográfico dos indivíduos considerando espécie, sexo, faixa etária e condição corporal. Os casos foram subdivididos em eletrocussão ou eletroplessão, considerando a causa da morte, lesões macroscópicas externas e região do corpo acometida. Resultados: Trinta e dois casos apresentaram acidente com rede elétrica (32/304; 10,5%). A maioria dos indivíduos foi híbridos (27/32; 84,3%), 6 Callithrix penicillata (6/32; 18,75%) e 1 Callithrix jacchus (1/32; 3,1%); 20 adultos (20/32; 62,5%), 3 subadultos (3/32; 9,4%), 6 juvenis (6/32; 18,7%), 2 infantis (2/32; 6,2%) e 1 sem registro de faixa etária (1/32; 3,1%); 9 machos (9/32; 28,1%), 22 fêmeas (22/32; 68,5%) e 1 sem registro de sexo (1/32; 3,1%); 19 em boa condição corporal (19/32; 59,4%), 10 magros (10/32; 31,2%), 1 caquético (1/32; 3,1%) e 2 sem registro de condição corporal (2/32; 6,2%).  A causa de morte foi eletrocussão em 3 casos (3/32; 9,4%), eletroplessão em 9 (9/32; 28,1%), dos quais 6 apresentaram trauma decorrente (6/32; 18,7%), e 20 foram eutanasiados após eletroplessão (20/32; 62,5%). As alterações macroscópicas externas mais frequentes foram queimaduras caracterizadas por necrose cutânea, bolhas, solução de continuidade da pele, exposição de músculo, tendões, ossos e amputações. As regiões anatômicas acometidas incluíram cabeça (9/32; 28,1%), tronco (12/32; 37,5%), membro torácico (22/32; 68,75%), membro pélvico (24/32; 75%) e cauda (8/32; 25%). Discussão:  As alterações descritas em 10,5% da casuística ocorreram em fêmeas em idade reprodutiva e aponta que a mortalidade destas pode impactar negativamente a densidade populacional. A predominância de lesões nos membros torácicos e pélvicos indica a baixa viabilidade e probabilidade de sobrevivência dos indivíduos na natureza após o acidente. As fraturas, hematomas e luxações costumam derivar de quedas consequentes ao acidente em rede elétrica, mas também podem acontecer pela forte contração muscular causada pela exposição à corrente (2). Conclusão: Caracterizar as lesões causadas por acidente em rede elétrica contribui para compreensão da interferência e riscos da urbanização sobre a fauna silvestre. Estudos como este ressaltam a importância da implementação de medidas para a conservação da fauna, criação de corredores ecológicos, adequação e isolamento de redes elétricas no ambiente periurbano e urbano. Aprovado pela Comissão de Ética no Uso de Animais – CEUA: 4103250222. SisBio: 85398-1.

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Publicado

2026-03-23