REABILITAÇÃO NEUROLÓGICA POR MEIO DE CINESIOTERAPIA EM TAMANDUÁ-BANDEIRA (Myrmecophaga tridactyla): PRIMEIRO CASO DESCRITO

Autores

  • Juliana Dias Silveira
  • Tânia Ribeiro Junqueira Borges
  • Lucas Micael Freire Pereira
  • João Paulo Ambrosio da Silva
  • Betânia Pereira Borges
  • Giovanna Luiza Vieira de Carvalho
  • Júlia Eva Gontijo Soares
  • Natasha Ayete La Menza

Palavras-chave:

Trauma, Xenarthra, Fisioterapia

Resumo

O tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), classificado como vulnerável à extinção, enfrenta diversas ameaças como atropelamentos, fragmentação de habitat, além de ataques, o que resulta em uma alta mortalidade e baixa taxa de reintrodução da espécie (1). Nesse contexto, um tamanduá-bandeira macho adulto de 35 kg foi admitido para atendimento apresentando lesões perfurantes em abdômen, membros pélvicos e torácicos, compatíveis com mordeduras de cães, assim como suspeita de miopatia por captura e trauma crânioencefálico. Encontrava-se em estado comatoso, com hemorragia ocular, nistagmo, opistótono, bradicardia, hipoglicemia, hipoxemia, desidratação, enterite e infestação por carrapatos. Após estabilização medicamentosa do quadro clínico e neurológico, o animal foi encaminhado à fisioterapia devido a considerável perda de massa muscular (30 kg; EC: 1,5), propriocepção e coordenação (2). Foram instituídos protocolos fisioterapêuticos adaptados à progressão do quadro do paciente, compostos por exercícios de cinesioterapia e massoterapia associados (3), realizados três vezes por semana e alimentação hipercalórica forçada. Inicialmente, a terapia consistiu em mobilização passiva das articulações dos membros, sustentação assistida por períodos de cinco segundos e massagens para alívio das tensões cervicais e torácicas. Nas primeiras duas semanas, observou-se evolução no quadro, com transição do decúbito constante para exercícios de isometria sentado e sit-to-stand, para deambulação assistida em círculos e para marcha autônoma em corredor. Nesse período, o animal começou a se alimentar de forma espontânea, e o alimento foi usado como reforço positivo nas sessões futuras. Após um mês de fisioterapia, constatou-se ganho de peso (tabela 1), melhora na amplitude de movimento, propriocepção, coordenação e capacidade de caminhar em linha reta. Nessa etapa, os exercícios focaram em isometrias em desníveis, obstáculos e apoio em três membros, cruciais para aprimorar a consciência corporal e desenvolvimento da musculatura de core. Com dois meses, o protocolo foi reajustado para promover hipertrofia muscular, resistência física e alongamento de musculaturas encurtadas. O paciente conseguia manter isometrias por mais de um minuto, realizar obstáculos no cavalete com diferentes níveis, assim como percorrer distâncias maiores durante a fisioterapia. Entre o terceiro e sexto mês, o animal foi transferido para um recinto maior, com a fisioterapia integrada à estrutura do ambiente (desníveis, degraus, árvores e texturas diferentes) (4). Houve ganho progressivo de peso (tabela 1) e melhora funcional. Exercícios específicos como flexão de braço e isometria em dois apoios foram acrescidos para mimetizar comportamentos inatos da espécie (4). O animal foi considerado apto para alta uma vez que as funções musculoesqueléticas, fisiológicas e comportamentais foram restauradas (figura 1). A intervenção fisioterapêutica demonstrou eficácia na reabilitação neuromuscular do tamanduá-bandeira, promoveu melhora significativa na musculatura, amplitude de movimento, propriocepção e coordenação motora, bem como a recuperação das funções fisiológicas. A progressiva adaptação dos protocolos, com inclusão de cinesioterapia associada ao enriquecimento ambiental, facilitou a plasticidade funcional e o restabelecimento dos padrões motores específicos da espécie. Este relato pioneiro ressalta a importância da abordagem fisioterapêutica integrada no manejo clínico de pacientes silvestres com comprometimento neurológico e musculoesquelético, e que contribuiu para a restauração da funcionalidade e da qualidade de vida.

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Publicado

2026-03-23