OSTEOSSÍNTESE EM CAPÍTULO DE ÚMERO EM TAMANDUÁ-BANDEIRA (Myrmecophaga tridactyla) E MANEJO PÓS-OPERATÓRIO COM TALA SPICA
Palavras-chave:
Cirurgia ortopédica veterinária, imobilização ortopédica, reabilitaçãoResumo
O tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) é um mamífero que pertence à ordem Pilosa e habita áreas abertas e florestas da América do Sul. Classificado como Vulnerável, sofre com a perda de habitat, atropelamentos, incêndios e ataques de cães — impactos diretos das atividades humanas (1). O manejo de fraturas em membros torácicos nessa espécie, apresenta elevado grau de complexidade, a anatomia singular e pouco familiar da espécie, associada à musculatura robusta e à urgência em restabelecer rapidamente a função do membro, intensificam esses desafios (2). O objetivo deste relato é descrever um procedimento cirúrgico e o manejo pós-operatório utilizando tala spica em um indivíduo de tamanduá-bandeira. Um tamanduá-bandeira macho, pesando 32 kg, foi encontrado à margem de uma rodovia com suspeita de atropelamento e encaminhado para atendimento emergencial. Na avaliação inicial, realizada sob sedação com metadona (0,3 mg/kg IM), cetamina (5 mg/kg IM) e midazolam (0,4 mg/kg IM), apresentava lacerações nos membros torácicos e pélvicos, edema em membro torácico esquerdo e hifema no olho esquerdo. O exame físico revelou hipotermia, taquicardia, pulso filiforme, mucosas normocoradas e desidratação moderada. Foi encaminhado para exame radiográfico, que demostrou uma fratura completa e desalinhada no capítulo do úmero esquerdo, com perda parcial da congruência articular umerorradial e umeroulnar,além de aumento de volume em tecidos moles adjacentes (Figura 1A). Após estabilização clínica, foi indicada intervenção cirúrgica para correção da fratura. O procedimento foi conduzido sob protocolo anestésico inicial (MPA) com bloqueio anestésico regional por bupivacaína (0,5 mg/kg) e anestesia geral induzida por propofol (6 mg/kg) e mantida com isofluorano. Com o paciente posicionado em decúbito lateral direito, a fratura do capítulo umeral foi exposta, removido tecido fibrótico e os fragmentos reposicionados anatomicamente. A estabilização foi feita com um pino intramedular de 2 mm, associado a parafuso com função compressiva, fixando adequadamente o foco da fratura. A miorrafia foi realizada utilizando fio de ácido poliglicólico 2-0. Os músculos seccionados foram suturados em padrão Wolff e os apenas divulsionados em padrão Sultan. A aproximação da pele foi realizada com sutura subdérmica em padrão zig-zag (walking sutures), também com fio PGA 2-0, e o fechamento cutâneo com fio de nylon 0, em padrão Sultan. A radiografia pós-operatória imediata confirmou o alinhamento satisfatório e a correta posição dos implantes (Figura 1B). O membro foi imobilizado com tala spica feita com algodão ortopédico e gesso sintético, destinada a restringir os movimentos do ombro e cotovelo, favorecendo a consolidação óssea e o controle da dor (3) (Figura 2A). No pós-operatório imediato, o animal já apoiava o membro e deambulava no recinto. Após 90 dias, realizou-se nova avaliação radiográfica, que evidenciou adequada ossificação (Figura 2B). O indivíduo permanece em processo de reabilitação, visando o retorno à vida livre no menor tempo possível,demostrando como os centros de reabilitação de fauna desempenham papel crucial para garantir o manejo adequado e aumentar as chances de reintegração do animal ao seu habitat natural (4).
