SARCOMA RENAL EM CORN-SNAKE (Pantherophis guttatus): Relato de Caso

Autores

  • Felipe Santos da Luz
  • Matheus Italo Bassani Ramos
  • Thaís Lorenzi Blatt
  • Loide de Melo Machado
  • Giovanna Duarte de Aguiar
  • Jeferson Rocha Pires
  • Rafael Freitas Nudelman

Palavras-chave:

Neoplasia, Oncologia, Serpentes

Resumo

Neoplasias são comumente diagnosticadas em répteis mantidos em cativeiro, com maior prevalência em serpentes, seguidas por lagartos, quelônios e crocodilianos (1, 2). Entretanto, neoplasias renais, como sarcomas, são pouco descritas nessa classe (3). O objetivo deste trabalho é relatar o diagnóstico e manejo cirúrgico de um sarcoma de partes moles grau II em porção renal de Corn-snake (Pantherophis guttatus) mantida como animal de estimação. Foi atendida no Rio de Janeiro, em outubro de 2024, uma fêmea de dois anos, pesando 140 g, com histórico de opacificação das escamas após alimentação, sem ocorrência de ecdise, concomitante ao aparecimento de aumento de volume no terço final do corpo. Ao exame físico, observou-se baixo escore corporal e muscular, além de massa palpável. Diante desses achados, a paciente foi internada, recebendo protocolo medicamentoso de suporte e foram realizados exames complementares. O exame laboratorial revelou elevação do ácido úrico. Radiografia contrastada e ultrassonografia não foram conclusivas quanto à topografia da lesão, porém foram sugestivos para  processo obstrutivo em terço final de intestino. Com a progressão do aumento do volume e ausência de excretas, foi optado por realizar laparotomia exploratória, em novembro de 2024. Durante o procedimento, identificou-se massa aderida à estrutura renal, sendo realizada nefrectomia unilateral para biópsia excisional (Figura 01). Para técnica cirúrgica, utilizou-se dispositivo eletrocirúrgico bipolar LigaSure™ Covidien LS10 para selamento vascular e ligadura da porção renal, sem necessidade de outro método hemostático. Em exame histopatológico macroscópico, observou-se fragmento irregular pardacento de 5,0 × 2,5 × 2,0 cm, acompanhado de ureter (sem neoplasia) medindo 13,0 × 0,2 cm. Em microscopia, constatou-se neoplasia mesenquimal maligna composta por células fusiformes em feixes curtos entrecruzados, com núcleos alongados, hipercromáticos, anisocariose, mitoses atípicas e áreas de necrose. O diagnóstico foi sarcoma de partes moles grau II, sugestivo de fibrossarcoma. Houve boa recuperação anestésica e cicatrização satisfatória do procedimento, no pós-operatório imediato, instituiu-se dipirona 25 mg/kg BID, substituída por morfina 2 mg/kg BID diante da persistência de dor, associada a meloxicam 0,25 mg/kg e ceftazidima 30 mg/kg IM à cada 48 h por sete dias. Após melhora clínica inicial, a paciente recebeu alta hospitalar. Durante o acompanhamento devido ao diagnóstico, a paciente apresentou ganho de escore e melhora de parâmetros, mas evoluiu com quadro agudo de convulsão sem resposta à terapêutica, levando o responsável a optar pela eutanásia em janeiro de 2025. O diagnóstico de neoplasias em répteis é desafiador, com prognósticos frequentemente desfavoráveis para tumores malignos (4, 5). A abordagem integrada, combinando exames de imagem e confirmação histopatológica, foi fundamental para identificar a natureza da neoplasia. Entretanto, o desfecho reforça as limitações do tratamento quando a doença é diagnosticada tardiamente. A ausência de melhora sustentada após a cirurgia pode indicar metástases não detectadas ou progressão agressiva, que a intervenção cirúrgica isolada não reverte. O presente relato contribui para a caracterização de tumores renais em serpentes e reforça a importância da integração entre avaliação clínica, intervenção cirúrgica, exame histopatológico e monitoramento pós-operatório.

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Publicado

2026-03-23