VASECTOMIA ELETIVA EM OURIÇO-CACHEIRO (Coendou spinosus): RELATO DE CASO E DESCRIÇÃO TÉCNICA
Palavras-chave:
esterilização, cirurgia, roedorResumo
O ouriço-cacheiro (Coendou spinosus) é um roedor arborícola, de hábitos noturnos, pertencente à ordem Rodentia, com ampla distribuição nos biomas Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal, além de ocorrer na Argentina, Paraguai e Uruguai (1,2). Na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN, é classificado como "Pouco Preocupante", já na lista de fauna ameaçada do ICMBio 2023, a espécie não está listada (2). Técnicas de controle populacional são relevantes para o manejo de espécies sob cuidados humanos e, em alguns contextos, no controle de populações exóticas invasoras (3). Este relato descreve uma vasectomia eletiva em um Coendou spinosus macho adulto (peso 1,375 kg, idade estimada 10 anos), mantido sob cuidados humanos em recinto com outros três contactantes, fêmeas da mesma espécie. Devido à ausência de interesse reprodutivo, por não se tratar de uma espécie ameaçada de extinção e com o objetivo de evitar excedentes populacionais, optou-se pelo procedimento. O protocolo anestésico incluiu midazolam (0,8 mg/kg, IM), cetamina (18 mg/kg, IM) e morfina (1 mg/kg, IM), com manutenção de plano de com isoflurano inalatório em máscara. Durante todo o procedimento cirúrgico, o animal foi submetido a monitoramento multiparamétrico, incluindo frequência cardíaca, frequência respiratória, oximetria de pulso, temperatura e capnografia. Mantendo-se em plano cirúrgico com parâmetros fisiológicos na faixa de normalidade para a espécie no trans-operatório. Após a tricotomia da região hipogástrica, a antissepsia foi realizada com clorexidina degermante 0,2% seguido de álcool 70%. Foi realizada uma incisão de 3 cm em linha alba região pré-púbica, acessando a cavidade abdominal do animal. Foi localizado e exteriorizado o testículo e, após identificação do ducto deferente, foram realizadas duas ligaduras nas porções cranial e caudal deste com Nylon 2-0, seguido da secção entre as ligaduras (Figura 1). O procedimento foi repetido para o ducto deferente contralateral. Foi utilizado fio Nylon 2-0 na sutura contínua simples da musculatura e sutura intradérmica. A pele foi suturada em bolsa de tabaco com Nylon 2-0, evitando expor pontos que poderiam ser retirados pelo paciente. O tempo total do procedimento foi de 35 minutos. O animal apresentou recuperação anestésica satisfatória e permaneceu em observação no setor veterinário, recebendo tratamento pós-operatório com dipirona (25 mg/kg, IM, q12h, por 5 dias), tramadol (3 mg/kg, IM, q12h, por 3 dias), meloxicam (0,1 mg/kg, IM, q24h, por 3 dias) e enrofloxacina (10 mg/kg, IM, q12h, por 7 dias). Não houveram intercorrências pós-cirúrgicas e o animal retornou ao mesmo recinto em 7 dias. A vasectomia, embora nesta espécie envolva o acesso à cavidade abdominal preserva os testículos e, assim, a produção de andrógenos, mantendo o comportamento e a dinâmica social do indivíduo (4). A técnica mostrou-se segura, viável e de baixa complexidade para cirurgião capacitado, sendo uma alternativa adequada e eficiente ao manejo reprodutivo de Coendou spinosus sob cuidados humanos, sem interferir em grupos sociais estáveis. Até o momento, não foram encontrados relatos anteriores da realização deste procedimento na espécie.
