CARACTERIZAÇÃO DO CICLO REPRODUTIVO DE FÊMEAS DE TAMANDUÁ-BANDEIRA EM AMBIENTE NATURAL

Autores

  • Grazielle Soresini
  • Ana Carolina Monteirinho Lobo
  • Mario Henrique Alves
  • Pablo Dutra
  • Débora Quintino
  • Arnaud Desbiez
  • Rogério A. de Oliveira
  • Eunice Oba

Palavras-chave:

Citologia vaginal, hormônios sexuais, microbiota

Resumo

O tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) é um mamífero emblemático da América do Sul, caracterizado por baixa taxa reprodutiva, geralmente com um filhote por ano após gestação de aproximadamente 180 dias. As fêmeas são poliéstricas não sazonais, com sinais de estro pouco evidentes (1), e maturidade sexual estimada por volta dos três anos de idade (2). Estudos prévios com indivíduos sob cuidados humanos indicam que o ciclo estral apresenta duração média de 46 a 51 dias, com fases folicular e luteal seguidas por anestro (3,4). No entanto, aspectos fisiológicos e comportamentais da reprodução em vida livre ainda são pouco compreendidos. Este estudo teve como objetivo caracterizar aspectos morfológicos, citológicos, hormonais e microbiológicos do trato reprodutivo de fêmeas de tamanduá-bandeira no Cerrado de Mato Grosso do Sul, Brasil. Foram avaliadas 13 fêmeas (9 adultas e 4 jovens), monitoradas por GPS telemetria e amostradas entre junho de 2024 e fevereiro de 2025. Os procedimentos foram autorizados pelo ICMBio/MMA (licença 53798) e aprovados pela Comissão de Ética de Uso Animal da UNESP (protocolo 528/2023). Para a coleta de amostras biológicas, os animais foram anestesiados por via intramuscular com tartarato de butorfanol (0,1 mg/kg), cloridrato de detomidina (0,1 mg/kg) e cloridrato de midazolam (0,2 mg/kg). Ao final, foram administrados cloridrato de naloxona (0,02 mg/kg), cloridrato de ioimbina (0,125 mg/kg) e flumazenil (0,01 mg/kg) por via intramuscular ou intravenosa (5). As análises incluíram biometria da genitália externa, citologia vaginal, dosagens séricas de estradiol e progesterona, e cultura da microbiota vaginal. Os dados foram analisados por estatística descritiva e métodos não paramétricos (Wilcoxon, Kruskal-Wallis e correlação de Spearman), com nível de significância de P < 0,05. Fêmeas adultas apresentaram maior peso corporal (30,59 ± 2,76 kg) que as jovens (21,93 ± 7,02 kg). A vulva das adultas apresentou maiores dimensões (comprimento 5,57 ± 1,06 cm; largura 3,52 ± 0,73 cm) em relação às jovens (comprimento 3,95 ± 0,74 cm; largura 2,75 ± 0,76 cm), com diferenças estatisticamente significativas. A citologia vaginal revelou predominância de células parabasais em ambos os grupos: 68,0% ± 34,8 nas adultas e 51,5% ± 23,5 nas jovens. As concentrações séricas de estradiol e progesterona variaram entre os indivíduos. O estradiol teve média de 19,5 ± 9,8 pg/mL nas adultas e 44,6 ± 40,9 pg/mL nas jovens. A progesterona apresentou médias semelhantes: 2,3 ± 1,2 ng/mL nas adultas e 2,2 ± 0,4 ng/mL nas jovens, sem diferenças significativas. Quanto à microbiota vaginal, nas adultas predominavam bacilos Gram-negativos e nas jovens, cocos Gram-positivos. Este é o primeiro estudo a integrar dados morfológicos, hormonais, citológicos e microbiológicos do trato reprodutivo de fêmeas de M. tridactyla em vida livre, contribuindo de forma inédita para o conhecimento da fisiologia reprodutiva da espécie in situ e subsidiando protocolos para seu manejo reprodutivo.

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Publicado

2026-03-18