TRATAMENTO CLÍNICO DE ÚLCERA DE CÓRNEA EM “MELTING” EM URUBU-DE-CABEÇA-PRETA (Coragyps atratus)

Autores

  • Fernanda Taques Wendt
  • Julia Welter Nacimento
  • Franz Riegler Mello
  • Fabiano Montiani-Ferreira
  • Juliana Bresciani
  • Talita Valmborbida
  • Camila Coscrato de Oliveira
  • Rogério Ribas Lange

Palavras-chave:

Oftalmologia veterinária, rapinantes, tonometria

Resumo

O urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus) é uma ave de rapina diurna da família Catharthidae e possui hábitos alimentares necrófagos. O campo visual dessas aves apresenta uma pequena região binocular e pontos cegos localizados acima, abaixo e atrás da cabeça. O posicionamento visual adotado no momento da busca de alimento sugere que há um bom campo de visão em direção ao chão e lateralmente, porém pode limitar a visão na direção do voo  ADDIN ZOTERO_ITEM CSL_CITATION
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visual fields of vultures contain a small binocular region and large blind
areas above, below and behind the head. Head positions typically adopted by
foraging vultures suggest that these visual fields provide comprehensive visual
coverage of the ground below, prohibit the eyes from imaging the sun and
provide extensive visual coverage laterally. However, vultures will often be
blind in the direction of travel. We conclude that by erecting structures such
as wind turbines, which extend into open airspace, humans have provided a
perceptual challenge that the vision of foraging vultures cannot overcome.","container-title":"Ibis","DOI":"10.1111/j.1474-919X.2012.01227.x","ISSN":"0019-1019,
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(1). Lesões oculares são frequentes em rapinantes secundários a traumas como brigas e colisões com veículos, árvores e vidraças (2). O presente relato descreve o diagnóstico e tratamento de uma úlcera de córnea com necrose estromal liquefativa (em “melting”) devido a trauma em um urubu-de-cabeça-preta de vida livre. Uma fêmea, adulta, foi atendida no Hospital Veterinário com queixa de afecção ocular unilateral. Ao exame oftálmico do olho direito, observou-se envolvimento de aproximadamente 90% da córnea com necrose estromal liquefativa, secreção purulenta em rima palpebral e teste de fluoresceína positivo, constatando uma úlcera de córnea profunda (Figura 1). O reflexo de ofuscamento estava presente, e não foi possível avaliar a resposta à ameaça devido à subjetividade da avaliação na espécie. O reflexo pupilar direto não pôde ser avaliado, e o consensual apresentou breve escape no olho contralateral. O olho esquerdo não apresentava alterações, e sua tonometria foi de 6mmHg, não sendo possível aferir a pressão intraocular no olho acometido devido à fragilidade corneana. Iniciou-se o tratamento com aplicação tópica de colírios de tobramicina, ciprofloxacino, soro heterólogo equino e carmelose sódica a cada 2 horas durante 15 dias, e enrofloxacina (10mg/kg) via subcutânea BID durante 10 dias. O animal passava por reavaliação oftálmica a cada cinco dias, quando a frequência de aplicação dos colírios foi reduzida para a cada 4 horas, até sua alta após 21 dias. Ao final do tratamento, observou-se estabilização do quadro com formação de leucoma denso na córnea, sem sinais de desconforto, mantendo aparente resposta visual. A pressão intraocular de ambos os olhos foi mensurada em 6mmHg. Os achados oftálmicos indicam boa resposta ao tratamento clínico intensivo. Úlceras em melting são associadas à ação proteolítica, que leva à degradação do estroma, podendo progredir para a perfuração da córnea. Portanto, o diagnóstico e tratamento rápidos e intensivos são essenciais para recuperação. (3) Neste caso, a terapia intensiva com colírios antibióticos, lubrificante e soro heterólogo a cada 2 horas, associado à antibioticoterapia sistêmica, mostrou-se eficaz na resolução, evitando a necessidade de encaminhamento cirúrgico. A decisão terapêutica no tratamento oftalmológico de aves de rapina deve priorizar a menor cicatriz e a melhor possibilidade de recuperação da visão (4). Este relato contribui para demonstrar o tratamento clínico de úlcera de córnea com necrose estromal liquefativa, visando à manutenção do conforto ocular e da função visual, que são essenciais para garantir a qualidade de vida e viabilidade de soltura de aves silvestres em reabilitação.

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Publicado

2026-03-19