Trauma contuso e gastrite parasitária por Cylicospirura spp. em gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi) no oeste potiguar.
Palavras-chave:
Doença de felideos, gastropatia, granuloma parasitárioResumo
O gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi) é o segundo carnívoro mais amplamente distribuído nas Américas, mas no Brasil está classificado como vulnerável à extinção. Principalmente pela degradação do meio ambiente e perda do habitat natural, condição agravada por frequentes atropelamentos em rodovias (1). Descrevem-se os principais achados patológicos de um caso de trauma automobilístico e gastrite parasitária em um gato-mourisco. O animal foi encontrado morto pela equipe do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) na região do Oeste Potiguar do Rio Grande do Norte, e encaminhado para necropsia no Laboratório de Patologia Veterinária da Universidade Federal Rural do Semi-Árido. No exame externo do cadáver, observou-se condição corporal magra e mucosas pálidas. Ao rebatimento da pele, verificou-se hematoma focalmente extenso na região toracoabdominal direita (Figura 1A). Na abertura da cavidade torácica, observou-se fratura transversal completa da sétima à décima primeira costela direita acompanhada de aproximadamente 50 mL de sangue. Os pulmões estavam não colapsados e avermelhados. Na cavidade abdominal, havia áreas multifocais de ruptura do parênquima hepático associado a aproximadamente 100 mL de sangue. Na região fúndica do estômago, verificaram-se dois nódulos firmes, lisos e brancacentos, medindo 3,5 cm de diâmetro cada (Figura 1B). Na abertura, havia na mucosa um óstio comunicando o nódulo ao lúmen gástrico e numerosos parasitos nematódeos, filariformes e brancacentos, medindo até 2 cm de comprimento. Ao corte transversal dos nódulos, verificou-se uma cavitação central contendo nematódeos em diferentes estágios de desenvolvimento. Na abertura do esôfago, verificaram-se numerosos parasitos nematódeos semelhantes, por vezes obstruindo o lúmen esofágico (Figura 1C). No exame histopatológico, observaram-se nódulos bem delimitados por marcada proliferação de fibroblastos e espessas fibras colágenas maduras expandindo a parede gástrica (fibrose esclerosante), permeados por acentuado infiltrado inflamatório de neutrófilos, eosinófilos, macrófagos espumosos e ocasionais linfócitos. Centralmente, havia área focalmente extensa de necrose com helmintos nematódeos, em secções transversais e longitudinais, e caracterizados por cutícula eosinofílica, hipoderme espessa, cordões laterais circulares e vacuolizados, intestino com epitélio cúbico alto e ovos operculados, morfologicamente compatíveis com nematódeos do gênero Cylicospirura spp. (Figuras 1D e E). No centro das lesões havia tratos fistulosos comunicando as áreas de necrose com o lúmen gástrico. Nos pulmões havia larvas de nematódeos e ocasionais ovos nos espaços alveolares, frequentemente associados a infiltrado inflamatório mononuclear, hiperplasia dos pneumócitos tipo II e edema (Figura 1F). Os diagnósticos foram estabelecidos com base nos achados anatomopatológicos. Estudos observacionais têm demonstrado que traumas automobilísticos são responsáveis por um grande número de óbitos nessa espécie, com médias superiores a 20% (1). Por sua vez, a gastrite parasitária por Cylicospirura spp. é uma condição frequentemente identificada em gatos-mouriscos no semiárido nordestino (2). A infecção pode ser subclínica, mas ocasionalmente pode ser associada a dor abdominal, anorexia e emagrecimento. O diagnóstico das causas de óbitos em animais selvagens permite a identificação dos problemas ambientais e evidencia as condições de sanidade dos animais de vida livre. Tais informações podem subsidiar ações de conservação da biodiversidade e manejo sustentável da fauna silvestre do semiárido.
