CÁLCULO VAGINAL EM CUTIA (Dasyprocta leporina): RELATO DE CASO

Autores

  • Isadora Raquell Soares de Queiroz
  • Fernanda Loffler Niemeyer Attademo
  • Ana Caroline Freitas Caetano de Sousa
  • Jael Soares Batista
  • Moacir Franco de Oliveira
  • Radan Elvis Matias de Oliveira

Palavras-chave:

Rodentia, sistema reprodutor, urolitíase

Resumo

A ocorrência de cálculos vaginais é rara na clínica veterinária (1). Este trabalho relata, o primeiro registro de cálculo vaginal em uma cutia (Dasyprocta leporina), identificado em uma fêmea adulta, com cerca de quatro anos e aproximadamente 3 kg, mantida em recinto de 5,0 × 5,0 m, com dieta diária de frutas, grãos de milho, ração para coelhos e água ad libitum, proveniente do Centro de Multiplicação de Animais Silvestres da Universidade Federal Rural do Semi-Árido, em Mossoró, RN, Brasil. Em fevereiro de 2025, observou-se o aumento de volume na região genital. O exame físico revelou mucosas normocoradas, TPC normal e hidratação adequada. À palpação, verificou-se aumento de volume na região vaginal com consistência rígida e móvel. Na avaliação direta pela vulva, foi possível visualizar a presença de um cálculo, ocupando toda à cavidade vaginal (Figura 1A). Foram realizados exames sanguíneos (hemograma completo e perfil bioquímico sérico), interpretados de acordo com os valores de referência (2,3). Os resultados revelaram discreta anemia macrocítica hipercromica, leucopenia e leve elevação da fosfatase alcalina (Tabela 1). Para a remoção do cálculo, foi administrada medicação pré-anestésica por via intramuscular, composta por cetamina (17 mg/kg), midazolam (1 mg/kg) e morfina (1 mg/kg). A indução anestésica foi realizada com propofol (5 mg/kg) por via intravenosa, seguida de manutenção com a mesma medicação (1 mg/kg). Após antissepsia do local foi feita uma incisão de aproximadamente 1,0 cm na incisura ventral da vulva de modo a remover o cálculo. A musculatura e o tecido subcutâneo foram suturados com fio absorvível de poliglecaprone 3-0, em padrão simples contínuo, enquanto a pele foi fechada com fio de nylon 3-0 em padrão simples separado. Após o procedimento cirúrgico, realizou-se ultrassonografia abdominal com o animal ainda anestesiado. Não foram identificadas alterações sugestivas de processos inflamatórios ou obstrutivos, nem a presença de cálculos ou microcálculos na bexiga urinária, indicando origem localizada para o cálculo vaginal. O cálculo era único e de forma arredondada, cor bege, superfície rugosa na região ventral e lisa na região dorsal e com áreas de consistência duras e friáveis (Figuras 1B-1D). Possuía dimensões de 2,9 cm x 3,2 cm x 2,7 cm e pesando 8,31 gramas e após análise química revelou ser de natureza mista, composto por carbonato de cálcio, oxalato de cálcio, fosfato de cálcio (hidroxiapatita) e fosfato de amônio e magnésio (estruvita). Cálculos vaginais podem estar associados ao acúmulo de urina na vagina (Primários), ou formados ao redor de corpos estranhos ou migrados da bexiga (Secundários) (4). No caso descrito, não foram observadas alterações anatômicas ou corpos estranhos, sugerindo que a formação esteja relacionada a fator infeccioso, pois a presença de estruvita na composição mista do cálculo indica provável participação de bactérias urease-positivas, como Proteus, Klebsiella ou Escherichia coli, que alcalinizam a urina e favorecem a precipitação de cristais (5). Assim, o caso ressalta a raridade da localização e a importância de considerar infecções urinárias como causa de cálculos em sítios incomuns, ampliando o conhecimento sobre a urolitíase em roedores silvestres.

Downloads

Publicado

2026-03-20