ASPECTOS DE SAÚDE E CONSERVAÇÃO DO DIDELPHIS AURITA EM COMUNIDADES URBANAS

Autores

  • ianei de oliveira carneiro
  • Thaís Auxiliadora dos Santos Mattos
  • Diogo Ferreira
  • Nicole Hlavac
  • Jaqueline Cruz
  • Hussein Khalil
  • Federico Costa
  • Hernan Darío Argibay

Palavras-chave:

Diagnóstico, Fauna urbana, Saúde Única

Resumo

O sariguê (Didelphis aurita ) é um mamífero metatério endêmico da Mata Atlântica, cuja adaptabilidade ao ambiente urbano o torna um elo relevante entre os ciclos silvestre e doméstico. A especie pode ser biomonitor de qualidade ambiental, além de fornecer importantes serviços ecossistêmicos. Objetivamos descrever o status de saúde de D. aurita em vida livre em comunidades vulnerabilizadas urbanas de Salvador, visando discutir os potenciais riscos de zoonoses e contribuir para estratégias de conservação da espécie. A pesquisa conta com CEUA (protocolo 07/2021) e SISBIO/IBAMA (protocolo 77314-1). As coletas foram realizadas entre outubro/ 2021 e março/ 2023, em duas comunidades caracterizadas por condições sanitárias precárias, áreas naturais fragmentadas, alta abundância de roedores e ocorrência de alagamento, fatores que potencializam os riscos à saúde pública e à conservação da fauna (Figura 1). Dispusemos 2 tomahawks iscadas/ ponto, 4 noites, checagem matinal, em peridomicílio e área natural. A coleta de sangue se deu mediante contenção química, sendo o material direcionado para o perfil hematológico e sorologia de Leptospira spp. (MAT; 1:50) (1). As fezes - defecção natural (formol 10%), foram analisadas por flutuação, microscopia óptica (10x e 40x).  Capturamos 81 animais, mediana de peso 728gr (Intervalo Interquartil - IIQ: 388-1120). Obtivemos perfil hematológico de 75% (61/81) dos sariguês (23 machos, 35 fêmeas e 3 indeterminados). Para machos, as medianas foram: RBC 5,13 ×10¹²/L, HGB 12 g/dL, HCT 39,7%, VCM 78,18 fL, WBC 11.900/µL, com 4.400/µL de neutrófilos, 4.650/µL de linfócitos, 1.717/µL de eosinófilos e 177/µL de monócitos; para fêmeas: RBC 4,76 ×10¹²/L, HGB 11,5 g/dL, HCT 37,8%, VCM 79,5 fL, WBC 12.600/µL, neutrófilos 5.412/µL, linfócitos 4.092/µL, eosinófilos 1.862/µL e monócitos 194/µL. Os indefinidos apresentaram RBC 5,05 ×10¹²/L, HGB 11,4 g/dL, HCT 37,3%, VCM 75 fL, WBC 12.500/µL, 7.670/µL de neutrófilos, 2.575/µL de linfócitos, 1.000/µL de eosinófilos e 130/µL de monócitos. 10,3% (8/77) dos animais testaram positivos para os sorogrupos  Icterohaemorrhagiae cepa Fiocruz L1 130 (5), e Celledoni cepa Celledoni (1). Os parasitas diagnosticados foram Ancylostoma (9,8%; 8/81), Trichuris (7,4%; 6/81), Capillaria (1,2%; 1/81) e Isospora (1,2%; 1/81). A mediana de peso sugere predomínio de animais juvenis. Os valores mais elevados na linhagem eritróide dos machos e das fêmeas na linhagem mieloide é compatível com estudos já publicados com Didelphis, podendo estar associado a fatores fisiológicos, hormonais (2). Fatores infecciosos, especialmente bacterianos, baixa qualidade ambiental e estresse podem gerar as linfocitoses, enquanto imunossupressão e baixo estímulo podem levar às linfopenias, especialmente em juvenis. O sorogrupo Icterohaemorrhagiae, reconhecido por seu potencial zoonótico, é o mais prevalente na região, no entanto, os impactos sobre o Didelphis e a papel desses animais no ciclo de transmissão ainda é desconhecido. A proximidade das residências com a mata e a baixa infraestrutura possibilita aos sariguês contanto com lixo, esgoto, inclusive Rattus, ampliando sua interação com patógenos. O contato do sariguê com ambiente urbano o expõe a parasitas comumente detectados em espécies domésticas, a exemplo do Ancylostoma (3). Assim, a conservação de espécies em centros urbanos pressupõe cumprir requisitos socioambientais que impactarão diretamente na saúde ambiental, humana e animal.

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Publicado

2026-03-23