PREVALÊNCIA DE INFECÇÃO NATURAL POR Platynosomum spp. EM SAGUIS (Callithrix Sp.) MANTIDOS SOB CUIDADOS HUMANOS
Palavras-chave:
Exames coproparasitológico, platinosomose, primatasResumo
Platynosomum spp. são trematódeos que parasitam a vesícula biliar e os ductos biliares de mamíferos e aves em diversas regiões do mundo, especialmente em zonas tropicais e subtropicais. Seu ciclo de vida inclui moluscos como primeiros hospedeiros intermediários, nos quais os ovos evoluem para cercárias; isópodes terrestres como segundos hospedeiros intermediários, onde ocorre a transformação em metacercárias (forma infectante); e pequenos vertebrados, geralmente lagartos, que atuam como hospedeiros paratênicos e são, por sua vez, predados pelo hospedeiro definitivo (1). Relatos de infecção por Platynosomum spp. em primatas têm sido descritos, principalmente como achados post mortem. As manifestações clínicas e a patogênese da doença nesses animais ainda são pouco compreendidas. Frequentemente, os indivíduos infectados permanecem assintomáticos, sendo o diagnóstico realizado de forma incidental por meio de exames coproparasitológicos (1,2). O objetivo deste trabalho foi descrever a prevalência de platinosomose em saguis (Callithrix sp.) naturalmente infectados mantidos sob cuidados humanos. Foram avaliados nove indivíduos por meio de exames coproparasitológicos seriados, com detecção de infecção por Platynosomum spp. em sete deles, resultando em uma prevalência de aproximadamente 77,8%. Embora os animais estivessem assintomáticos no momento da triagem, a detecção da infecção motivou a realização de exames complementares (Tabela 1), como bioquímica sérica e ultrassonografia abdominal em alguns indivíduos (Figura 1), visando investigar possíveis alterações hepáticas. Durante o acompanhamento, três animais vieram a óbito: dois positivos, sem relação direta com a platinosomose, e um negativo. Apesar dos relatos crescentes, a evolução clínica e o tratamento da doença em primatas ainda representam um desafio (3). Ainda que muitas infecções sejam assintomáticas, há evidências de que o parasita possa provocar alterações hepáticas significativas, como colangite, hepatopatias e lesões no parênquima hepático, levando ao comprometimento progressivo das funções fisiológicas e, em alguns casos, ao óbito (3,4). Alterações nas enzimas hepáticas, como ALT, AST, GGT e FA, podem estar relacionadas a distúrbios clinicopatológicos decorrentes da infecção por Platynosomum spp., ou ainda atuar como indicadores indiretos da enfermidade. Os níveis séricos de AST e GGT podem ser utilizados como marcadores de anormalidades hepatobiliares crônicas (5). No presente estudo, alterações compatíveis com comprometimento hepático foram observadas mesmo em animais com exames coproparasitológicos negativos, ressaltando a importância da avaliação ultrassonográfica e das enzimas hepáticas como ferramentas complementares. A eliminação intermitente de ovos nas fezes (2,3) pode gerar resultados falso-negativos, o que reforça a importância de exames seriados e monitoramento contínuo para detecção precoce da infecção e controle de ambientes. Fatores ambientais desempenham papel importante na manutenção do ciclo do parasita. Investigações indicam que recintos com telas metálicas e solos úmidos, ricos em matéria orgânica, favorecem a presença de isópodes, hospedeiros intermediários essenciais no ciclo do trematódeo (4). Esse cenário representa um alerta para os Centros de Triagem e reabilitação, pois a infecção pode comprometer tanto o estado de saúde dos animais quanto sua capacidade de reabilitação e posterior reintrodução ao ambiente natural. A adoção de estratégias preventivas e o monitoramento constante são essenciais para preservar a integridade dos indivíduos e garantir o sucesso dos programas de reabilitação e conservação das espécies.
