Principais alterações clínicas em perereca-pintada-do-rio-Pomba (Nyctimantis pomba) mantidas ex situ

Autores

  • Mayara Grego Caiaffa -
  • Giannina Piatto Clerici
  • Caue Monticelli

Palavras-chave:

anfíbios, conservação, ex situ

Resumo

Nyctimantis pomba é uma espécie de anfíbio endêmica do Brasil restrita a Cataguases - MG. Classificada como Criticamente em Perigo (1) é considerada prioritária para estratégias de conservação ex situ. Este estudo visa descrever as principais alterações clínicas identificadas em indivíduos mantidos ex situ entre 2022 e 2025. Atualmente o plantel é constituído por 228 animais, incluindo indivíduos provenientes da natureza e juvenis nascidos ex situ. Avaliações clínicas individuais foram realizadas em casos de alterações comportamentais ou físicas. Animais mortos foram submetidos à necropsia e amostras fecais foram analisadas. Registrou-se 63 casos clínicos ou óbitos de animais juvenis e adultos. Destes, 15,9% envolveram ingestão de substrato como cascalho e vegetação, sendo 9,5% confirmados por palpação ou necropsia, e 6,4% eliminados pelas fezes. Lesões em membros representaram 11,1% dos casos, incluindo inchaço articular, edema de membro e perda de falanges. Alterações congênitas corresponderam a 31,8% dos registros clínicos, abrangendo desvios de coluna, microftalmia, anoftalmia, prognatismo e deformidades de membros. Quando considerado o total da população, 8,3% dos juvenis nascidos ex situ apresentaram alterações congênitas. Lesões cutâneas foram observadas em 8% dos indivíduos e prolapsos cloacais em 4,8%. Houve dois registros de canibalismo entre juvenis, sendo confirmado por ossos nas fezes. Houve casos isolados de litíase biliar, impactação, inanição, intoxicação, desidratação e predação por formigas.  Em 12,7% dos óbitos, não foi possível determinar a causa devido à autólise, e 4,8% foram eutanasiados por traumas graves. Infecções por nematódeos foram observadas em 72,6% dos animais do plantel, incluindo animais coletados para início da população de segurança. Atualmente, os adultos coletados (n=8) não apresentam mais parasitas, entretanto os juvenis nascidos ex situ demonstraram alta carga parasitária. Apesar da maioria dos animais permanecerem assintomáticos, quadros clínicos foram observados em condições de superpopulação como possível estressor. Acredita-se que a ingestão de pedra é um evento acidental, assim como já foi descrito para anfíbios de vida livre (2). As lesões em membros foram atribuídas ao manejo incorreto durante ambientação dos recintos e contenções. As hipóteses para as malformações congênitas estão relacionadas à baixa diversidade genética da espécie, elevada densidade embrionária, alimentação inadequada dos girinos e demais fatores ambientais durante o desenvolvimento dos ovos e girinos. No entanto, outros fatores já foram relacionados a malformações em anfíbios, como infecções parasitárias, viroses, exposição a poluentes e radiação ultravioleta B (3). Malformações foram observadas em girinos de outras espécies, sendo considerado dentro do padrão populacional que até 5% dos indivíduos apresentem anomalias (4). Lesões cutâneas podem ocorrer por brigas entre indivíduos e condições de estresse ambiental. O canibalismo, comum entre anfíbios, frequentemente envolve a predação de juvenis por indivíduos maiores (5), o que reforça a necessidade de monitorar o desenvolvimento dos animais de forma a manter juntos apenas indivíduos de tamanhos semelhantes. Os dados apresentados destacam a importância do monitoramento clínico constante, da adequação ambiental e da vigilância sanitária contínua. O desenvolvimento de protocolos específicos é essencial para padronizar o manejo e garantir o sucesso dos programas de conservação ex situ, assim como viabilizar ações de pesquisa e conservação integrada.

Downloads

Publicado

2026-03-23