RAÇA, GÊNERO E A ARMADILHA DO ARQUIVO: uma análise fílmica de Madame Satã (2002)
Palavras-chave:
Raça, Gênero, FabulaçãoResumo
O artigo se propõe a analisar como o filme Madame Satã (2002), de Karim Aïnouz, converte a descrição judicial de Madame Satã em matriz narrativa e visual de sua cinebiografia. Ao reivindicar fidelidade ao arquivo e organizar o corpo por meio de dispositivos que reiteram a colonialidade do olhar sobre uma subjetividade racializada e transdissidente, a obra reatualiza um regime de legibilidade no qual raça e gênero emergem segundo gramáticas modernas de classificação. Em contraste com a fabulação crítica proposta por Saidiya Hartman, que busca tensionar e expandir as lacunas do arquivo sem preenchê-las com coerência classificatória, o filme parece operar de forma contrária, ou seja, pela contenção interpretativa, privilegiando a estabilização identitária em detrimento da abertura especulativa que permitiria sustentar a abrangência da vida narrada.